A vida é tão bonita que parece o arquejo dos seus pés quando eles se contraem para você se espreguiçar, e a janela entreaberta faz um degradê em sua pele que marca cada pedaço de paraíso e pecado, e na alfândega, o sorriso teu é a chancela e teus cabelos negros, o pedágio. Eu estou voltando pra casa.
Minha avó sorria sem dentes, tampando gentilmente a bôca, e depois se curvando, elevando as mãos ao Céu, como se a alegria fôsse - como o é - dom de Deus. E tem muita gente por aí que sorri sem ser humilde e não eleva os dons para Deus. E eu, quando me lembro de minhas raízes, volto para onde nunca saí - para a seiva da gênese; eis-me aqui...
...eterno garôto encreiqueiro, trigueiro príncipe do degrêdo, filho ordinário de Itaquera, de sôco inglêz na mão e terço na outra, pude ser tudo o que a vida me deu e me fez caber ser - amei e odiei na mesma proporção, turbulento com a mãe e desastroso em achar o amôr; e nas ruas cheias de estranhos, me disfarçava como mais um; por mais que eu não possa mais, ainda dobro o triângulo, e desço tôda a Brigadeiro Luís Antônio tomando um latão ouvindo The Who. Eu me tomo como sou, e me aceito na medida que me faço, sendo sob-medida para mim, sem ser algo que não sou, e tampouco ser pouco para o raso. Transbordo quando devo, e irrito os que não entendem ainda. Sou eterno transgressor, como tôdo degredado é.
Aquela árvore, apesar de podada ainda está lá. E firme, e forte, sem vermes ou doença. Suas folhas ainda caem na calçada e fazem um farfalhar agradável durante o vendaval, e quando chove, estranha e misticamente a sua copa consegue nos proteger; descendo um tanto a rua tem a banca de pastel do Birebadim, a tenda de ervas do seu Sinval, e o cara que arrumava panelas - e minha avó sempre comprava a borracha de panela de pressão nele. O barbeiro que cortava meu cabelo morreu, mas seu filho tomou conta do lugar, e assim o negócio da família continua em boas mãos. Meus amigos ainda estão espalhados - talvez cada vez mais - em todos os recôncavos. E ali na rampa, Toninho não está mais. E Tio Fungo, infelizmente falecido de morte trágica não pode ver como o Sol descia vermelho do lado dos novos prédios que subiram no lado esquerdo da praça aonde eu e os meninos bebíamos vinho quando cabulávamos aula.
Os trens ainda fazem o mesmo som quando batem a curva férrea, e a cidade ainda tem o mesmo cheiro de cinza, fumaça, urina e café. Os olhos descompromissados de edifícios clássicos com igrejas barrocas se transfiguram quando passas com seu vestido e all-star. Ao te ver, o tempo se reduz para ver qual livro escolhe da estante; põe um óculos escuro, tá é Sol lá fora.
Ah, o Sol quando desce e faz sombras, é tão lindo. E a cerveja posta na mesa de madeira na calçada, o cachimbo aceso e a conversa a rodar sem fim, a miséria e a alegria com os livros postos num cantinho pra não esquecer enquanto ainda se decide o que comer... ainda tem tempo, e se não tiver tempo na rua ainda tem muitos bares, e chegando em casa ainda dá pra fazer mais alguma coisa. Tem um cara pedindo grana na esquina da minha rua, mas ele não usa pra comida - e se bobear ele come mais e melhor que eu com todas as marmitas que ele recebe, tanto que outro dia deram um pau n'ele por ele ter feito um "esquema" de vendas de marmitas doadas para quem não conseguia comer as doadas outrém. Disseram até que ele deslocou o joelho, mas eu o vi normalmente em pé e em ordem.
Nenhuma correspondência na cadeña, e nenhum recado no mural, e após três lances de escadas avanço ao meu refúgio - não há dulcinéia que me espera, mas meus livros gritam de saudade e meus instrumentos urgem por um afago, e enquanto enoitece na cidade, vagueio em cordas e letras para falar que sinto saudades daquele Céu estrelado que hoje fulgura em meu coração.
Após um banho, é acordar melhor amanhã.
Epitáfio do Marcus Queiroz. Apoia esse blog, faz um pix pra nózes: marcusvini15@hotmail.com
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