sábado, 30 de dezembro de 2023

Still Waters Run Deep.

A cidade desce, e no acinzentado padrão do mar-de-côres que o horizonte entrega, em cada ninho vertical que há na cidade, reside eu, tu, e tantas outras pessôas... acendo um cachimbo, e enquanto esfumaceio o meu cômodo, lembro de teu sorriso, e de alguma forma isso me trás uma nostalgia benéfica, de forma que só de lembrar seus olhos e seu sorriso, seu charme e seus trejeitos, me encabulo sem estar aqui.
Escrevo sem escrever, mais em tom de desabafo, estando a casas de distâncias, ruas talvez, até. Tudo é questão de logística pelo visto.
Enquanto o vento desce, encho minha taça para mais um tanto, e vejo os poucos carros na avenida movimentada. Assim, logo percebo como a vida, tão agitada também é - e pede - calma; assim como implicitamente pedi (e agora por telepatia) peço seus beijos; e antes que diga algo, você sabe que é para você esse pensamento, e mesmo não entendendo, sei que você compreende de alguma forma o meu jeito reservado, quieto, sereno, pensativo, teólogo-amadorístico, quixotesco, beberrão e principalmente travado em relação de você. 
Você acreditaria nas coisas que tenho a dizer? Em todas as que enchem minha alma e pesam em meu coração? Ouviria o resto de minhas histórias para desvendar e ver quem eu sou dentro desta carapaça? Você acreditaria no que falaria das coisas que sei, ou tentaria interrogar para que visse algo que nem a minha face se mostra? Se, no calor de hipoteticamente vos dizer algo já me escuso; sem que você saiba já me declaro e me deito ao vosso pé. E assim sou - imediatista, romântico, dos versos, dos sentimentos, das flôres e das liras. E esse sou e serei ao visto da minha vida; e no fundo nem acho de tanto ruim. Até gosto, a ser franco.
A chuva cai. Mui provavelmente dormes, ou assistes algo, ou preparas algo para beber. A têz da noite começa a abraçar o Céu cinza dando seus prenúncios, e você nem diz nada, tampouco me aborda para falar do que é, ou não é. E o oculto de meu peito, apenas espera a Dulcinéia. A vida, por mais incrível que seja também espera - ao atingirmos um patamar descobrimos que ela espera, e nesse sábio esperar para ter com quê, vemos finalmente a vida acontecer e ser real. E que é então a vida? Habita em seu sorriso, cabelos, olhos apertados, coxas grossas e voz macia e toque-de-mão. E qualquer coisa além disso, definitivamente Deus guardou para Ele.  

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

A Pair Of Brown Eyes.

 Sinceramente, não creio na certeza do que cresce e floresce. 
Cada vez mais creio no que minha mãe me nutriu desde cedo a crer: que eu não teria amôr, que não saberia o que isso seria (ou como seria/funcionaria), e como relógio com deficiência psicomotora, estaria eu fadado a chegar cedo demais ou tarde demais em toda história que me acochasse, sobrando pra mim a dita migalha. Como fadado a ruína e crescido na pobreza, guardei no âmago de meu coração os maiores desejos de um homem enforcado, e nele fiz meu trapiche e caserna. Nos dias frios, as estrêlas eram as confidentes, e a Lua, quando aparecia em formas cuniformes, era a musa de minhas trovas e serestas. E quando havia frio, os cobertores eram o abraço; e no calor, o vapor quente da natureza era o clima que nos excitava. 
Hoje, mais uma vez, é de solidão. E apenas isso.
Aliás, como se percebe que se chegou tarde demais? (não há relógio que determina, e é isso que atordoa e dói)
Apenas quando algo se consuma? Ou quando seu peito se arde em ais e vendo a oculta efíge daquilo que os olhos velam, você simplesmente esquece quem é, o que veio fazer, e porque está ali? 
E aqueles pares de olhos, que almejei minha vida toda, de repente não estão mais lá - e sendo franco, nem sei se eles alguma vez estiveram, e talvez tenha sido uma busca vã e fadigosa por nada. E como diria Dona Márcia: mais uma vez construí minha casa na areia. E tôda a busca, tôda a verdade, tôdo o sonho, tôda a esperança, tôda a fé, tenha sido tardia demais; logo não me resta nada mais e nem nada além de sentar no meio dessa estrada.
Sim, sentar. Parar. Fim. Corte abrupto.
Sacudir o pó das sandálias aonde não se é benvindo, e seguir para algum lugar só meu, aonde eu possa cegar esses olhos, tanger em tenaz viva de fôgo meu coração, e calar aquilo que pulsa jorrante ao peito, a mente anseia e o corpo clama. Matar o homem novo e renascer o velho. Não mais pulsar água e viño, mas apenas entender a vida como é e segui-la de maneira cada vez nenhuma. Não havendo vida, não há o que doer.
Os discos, os livros, estão todos aqui, tôdos eles me dizem aquilo que me cabe. Tudo isso ainda (por curto espaço de tempo me pertence). Que se te procura conforto, ombro amigo, ou descanso, mais fácil contar com o vazio do que com quem você está amplo e apto a entender e viver. Não se preocupar e deixar aquilo que mais dói e tange do que faz bem, e parar de pensar tudo por aquém não pensa tanto - sem escusa, sem justificativa, sem entrega e sem pensamento.
Entre a água e viño, escolho o copo que me anestesia e me deixa sair de mim, para num momento, trancado em meu apartamento, eu possa me sentir vivo, inteiro, e soltar um ris genuíno de alegria em meu peito desfigurado e em meu rôsto transfigurado, judiado da viagem até aqui.
Sigo, não por opção. 
Eu, sinceramente, termino e encerro aqui.
Um  afago nos Santos Cães da Rua, e meu amôr a tôdos os Irmãos Profetas da Rua que em seus abrigos, são mais sábios do que eu, e nas igrejas que fui, um pedaço de mim - meu coração, no Largo. E aos que se exilam, meu venerável e ditoso respeito cego de armas.
No mais, adeus.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Hand In Glove.

Mais um pesadelo, mais uma cama encharcada de suor, mais um dia. menos um dia. Mais um cansaço e mais um amargor para o coração já pesado.
E eram mãos que não se tocam mesmo em contato, beijos que se trespassam violentamente mais aprazerados do que afetivos, e sentidos que sentem outras coisas em vez daquilo que ousa sentir - ao canto, um corpo jazia, com sangue escorrendo do lençol. Esvanece e transfigura diante de mim aquilo que meu coração novamente se ousa derramar. Dizem os especialistas que é normal perder o coração... mas perder a alma e o anseio, do vívido estar e do viver e do falar, é totalmente perigoso e nocivo.
É sobre a demora, sobre o atraso, o caos, e jogar a bomba e sair correndo. É sobre ver o lance feito e sair andando e não pensar em um segundo em assumir a situação - demolir todas as crenças e todas as perspectivas e ainda achar que não se há problema, abrir fôgo "sem querer" e  não cogitar ao menos se deve socorrer. 
A omissão, é mãe de males inconvenientes gerados por uma ridicularização do ser.
Dói, transluze e passa, eles dizem. Mas eu não sei, eu não concordo. E pela enésima vez me paro distante, e vejo os cacos no chão, me preparando para pacientemente os resgatar e os pôr em ordem, mesmo que ninguém me pergunte, mesmo que ninguém me entenda, mesmo que ninguém me ponha em dedicação, mesmo que ninguém suporte, mesmo que de novo, entre os mares de gente seja apenas eu.
Outro dia vi um cara chorando na rua. Suas lágrimas pareciam lâmpeijos de cristais que desciam contra sua vontade. Havia um papel em sua mão - foto, letra, e algo mais que não pude ler. Mesmo de fone, pude ver que ele dizia algo, sua bôca denunciava algumas palavras que se misturavam com os cândidos cristais que jorravam de sua face. Hoje, ao caminho do correio, disse o fiscal do terminal que ele foi três vezes no mesmo ônibus, e apenas olhava a paisagem, como se aquilo o acalmasse de alguma forma.
Não ouvi os sinos, e vi cada pessoa estendida no chão. Olhei cada face opaca e me vi em cada um. Pensei em cada pensar e não encontrei nenhuma solução a não ser daquela que minha cabeça ecoa há anos. E no silêncio da vida, os passos começam a ser duvidosos, incertos, impacientes, e vacilantes - não que seja lá  coisa boa ou ruim, mas apenas coisa comum ou qualquer, de uma verdade que tange como um ferro quente e atordoa, e você percebe que aos outros sim, e a você não; e dada qual a censura da vida, a indagação gera um buraco que toma a alma e a consterna e a fazer gemer. Torce. Cidade ambígua. Desilusão. Os solos de guitarra no ouvido apenas lhe farão sentir anestesiados por minutos. O sorriso de receptividade parece mais vazio que nunca.
As memórias, os ditos, e os sangues que marcam a parede trazem histórias de durante e agora, mas não significam nada - e isso me atordoa. Assusta-me veemente (como sempre me assustou) que de uma certa maneira nada signifique e nada tenha um porque de ser, ter e viver. Poderia até dizer que sigo bem como sempre segui e vivo como sempre vivi, mas sei que seria uma grã mentira contra mim e contra a verdade em que me encerro; pois deixei um tanto de mim em quem encontrei, e levei uma parte dos que conheci - e entre as cicatrizes, não vivo. Existo.
Então me diga como eu devo "bater de frente" diante do colpaso, ver a vida com olhos cegos e entender que tudo de repente não passa de um eterno teatro de fingimentos - ah, a bôa-vida que quer se ter de alguma forma, e outrora repousavam em olhos de uma mulher chamosa que conhece as regras muito bem. Não existe fórmula, lhe adianto, mas há caminhos; e que nesses caminhos resultam em cheganças e partidas. E isso mantém-se imutável.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

California.

 A vida é tão bonita que parece o arquejo dos seus pés quando eles se contraem para você se espreguiçar, e a janela entreaberta faz um degradê em sua pele que marca cada pedaço de paraíso e pecado, e na alfândega, o sorriso teu é a chancela e teus cabelos negros, o pedágio. Eu estou voltando pra casa.
Minha avó sorria sem dentes, tampando gentilmente a bôca, e depois se curvando, elevando as mãos ao Céu, como se a alegria fôsse - como o é - dom de Deus. E tem muita gente por aí que sorri sem ser humilde e não eleva os dons para Deus. E eu, quando me lembro de minhas raízes, volto para onde nunca saí - para a seiva da gênese; eis-me aqui...
...eterno garôto encreiqueiro, trigueiro príncipe do degrêdo, filho ordinário de Itaquera, de sôco inglêz na mão e terço na outra, pude ser tudo o que a vida me deu e me fez caber ser - amei e odiei na mesma proporção, turbulento com a mãe e desastroso em achar o amôr; e nas ruas cheias de estranhos, me disfarçava como mais um; por mais que eu não possa mais, ainda dobro o triângulo, e desço tôda a Brigadeiro Luís Antônio tomando um latão ouvindo The Who. Eu me tomo como sou, e me aceito na medida que me faço, sendo sob-medida para mim, sem ser algo que não sou, e tampouco ser pouco para o raso. Transbordo quando devo, e irrito os que não entendem ainda. Sou eterno transgressor, como tôdo degredado é.
Aquela árvore, apesar de podada ainda está lá. E firme, e forte, sem vermes ou doença. Suas folhas ainda caem na calçada e fazem um farfalhar agradável durante o vendaval, e quando chove, estranha e misticamente a sua copa consegue nos proteger; descendo um tanto a rua tem a banca de pastel do Birebadim, a tenda de ervas do seu Sinval, e o cara que arrumava panelas - e minha avó sempre comprava a borracha de panela de pressão nele. O barbeiro que cortava meu cabelo morreu, mas seu filho tomou conta do lugar, e assim o negócio da família continua em boas mãos. Meus amigos ainda estão espalhados - talvez cada vez mais - em todos os recôncavos. E ali na rampa, Toninho não está mais. E Tio Fungo, infelizmente falecido de morte trágica não pode ver como o Sol descia vermelho do lado dos novos prédios que subiram no lado esquerdo da praça aonde eu e os meninos bebíamos vinho quando cabulávamos aula. 
Os trens ainda fazem o mesmo som quando batem a curva férrea, e a cidade ainda tem o mesmo cheiro de cinza, fumaça, urina e café. Os olhos descompromissados de edifícios clássicos com igrejas barrocas se transfiguram quando passas com seu vestido e all-star. Ao te ver, o tempo se reduz para ver qual livro escolhe da estante; põe um óculos escuro, tá é Sol lá fora.
Ah, o Sol quando desce e faz sombras, é tão lindo. E a cerveja posta na mesa de madeira na calçada, o cachimbo aceso e a conversa a rodar sem fim, a miséria e a alegria com os livros postos num cantinho pra não esquecer enquanto ainda se decide o que comer... ainda tem tempo, e se não tiver tempo na rua ainda tem muitos bares, e chegando em casa ainda dá pra fazer mais alguma coisa. Tem um cara pedindo grana na esquina da minha rua, mas ele não usa pra comida - e se bobear ele come mais e melhor que eu com todas as marmitas que ele recebe, tanto que outro dia deram um pau n'ele por ele ter feito um "esquema" de vendas de marmitas doadas para quem não conseguia comer as doadas outrém. Disseram até que ele deslocou o joelho, mas eu o vi normalmente em pé e em ordem. 
Nenhuma correspondência na cadeña, e nenhum recado no mural, e após três lances de escadas avanço ao meu refúgio - não há dulcinéia que me espera, mas meus livros gritam de saudade e meus instrumentos urgem por um afago, e enquanto enoitece na cidade, vagueio em cordas e letras para falar que sinto saudades daquele Céu estrelado que hoje fulgura em meu coração.
Após um banho, é acordar melhor amanhã.

domingo, 10 de dezembro de 2023

You Can Close Your Eyes.

Se tens pensamento e sensação de sono, descansa.
Põe então as tristezas, os cansaços, a raiva - tudo isso, em um cabide. Despido, dorme. Respira, e descansa, e sente cada vértebra, junta, pedaço, e músculo se meter em descanso na sua cama. Se quiser, fecha os olhos, e apenas dorme. O porre passou, e agora, cabe você em você.
Apenas sorri, e não pensa que amanhã começa tudo outra vez.
Apenas ouve o silêncio, e presta atenção na sinfônica que cabe nele. 
Preste atenção no detalhe de cada respirar teu. 
Por hoje já deu.
E agora, é apenas uma hora breve - porém longa - de descanso.
Amanhã a gente vê o que faz.
Amanhã a gente se vê.
Descansa.