Alarme apita. Tem que levantar mesmo?
Quanto desterro cabe na vida de um homem?
O Sol se levanta frio, ao se olhar da janela, tímido entre as nuvens pesadas que teimam uma garôa tipicamente paulistana.
Um livro está aberto na mesa. Página 88. Uma garrafa de vinho está posta na pia, vazia. O cobertor da cama bagunçando, e da janela entreaberta, uma vontade de mais cinco minutos na cama. O dia insiste em nascer apesar de tanta preguiça, de tanto sono, de tanta falta de não querer ser. Ah morena, tua cama vai sentir falta de ti e do teu cheiro de dormida.
Arruma-se, troca-se, abre-se e fecha.
Deita a água sobre o seu corpo pequeno, e a fumaça da água quente alivia a respiração em seus pulmões. Faz do banheiro um pequeno incælensa, aonde o templo de seu corpo não é pilhado, saqueado ou roubado. Encontra-se só entre o mar de si, e na sua oceanidade, nem assim ousa pensar. Se diz forte, mas é mais frágil que uma candeia.
Se armar e se cobrir de côta não te isenta de se quebrar. Na verdade, quem mais resguarda o peito é mais propenso a se machucar, se quebrar e se ferir. A fachada dura e bruta é fina. E só quem é digno de descer na gália arena de peito nu e vontade nobre, é que entre os escapamentos fumegantes e as crianças de guarda-chuvas digno de vencer.
A chuva prenuncia-se em nuvens cada vez mais pesadas, e nos ônibus lentos, tão pesarosos com os seus passageiros querendo sobreviver mais um dia, nas plataformas ferroviárias cheias de seres com sonhos moribundos, nos transeuntes que passam pelas ruas apressados em seus infinitos-particulares, nos sinos das igrejas, leitos de hospitais... todas as coisas ressonam, colidem, transpassam e mantém. E ai de mim se com a mão aberta em espreito não sentir com débil beleza e afã cada ressonar do mundo naquilo que me completa, desconcerta e tange.
E ainda sim, após tudo e tanto, teu ressonar ainda me tange. E sei lá eu Deus porquê... sei lá Deus porque ainda me pego pensando em tolices, vãs loucuras e pobres natimortas esperanças. E sei lá eu porquê quando ouço a fonética de teu nome ainda me dá um frio na barriga como se fosse lá eu o mesmo rapaz que foi lá te ver n’aquele dia de Abril. E ainda sim, sei lá eu porque escrevo ao saber que não lê. Como sempre, esse celeiro de palavras e missivas, torna-se meu rincão aonde despejo de mim toda a glória, mágoa, amôr, sentimento e precisão que tive ao longo desse passo mantido - e não falar de você, é como não dizer as benesses que o Bôm Senhor me fez desde minha queda, até minha reagrupação.
De fato, as minhas promessas foram verdadeiras. E a minha mão ainda está aberta...
E modéstia a parte; eu sou do Largo. E eu gosto de escrever. E eu só escrevo coisas que me pesam a pena.
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