segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Time Moves Slow.

 Estou aqui no hospital. Não imaginava que drenos no pulmão fossem incomodos. Já são três dias.

Depois de três dias a dimensão de tempo é tão difusa, tão surreal, que chega a incomodar.
Estou vivo ainda, por graça de Deus ou por alegria, talvez. Estou vivo, principalmente, pela esperança. As que imputam em mim e nas que eu gentilmente ponho no meu coração, ornando-as com a beleza de Deus.
Gostaria de beijo e abraço específico. Da voz e da tenaz palavra. Isso me acalmaria senão, atordoaria benéficamente. E neste frio, tremo as pernas com os cobertores postos, e sorrio. Apesar de toda essa lama, toda essa tristeza, ainda sinto e tenho um pedaço de Deus em mim. E isso também é esperança.
De esperança em esperança foi como vivi, pois assim pude deixar a providência divina e as obras da caridade nunca falharem dentro de sua matemática celeste.
Nunca senti que vivi pouco, pelo contrário: vivi o tanto que me coube, e tendo isso em mente não me regojizo ou me vitimizo: vivi o tanto que pude e que Deus deixou eu viver dentro de Sua tutela. Deus, além de Deus foi meu melhor amigo, pai, irmão, advogado e pretor.
Essa imunidade baixa e os dias frios me nocautearam. Alguns dizem que irei sobreviver e que rezam por isso. Mas, docilmente ponho nas mãos do Divino o querer (não só disso, mas de tudo que abrange minha mente agora). Caso viva, bendigo Meu Senhor. Caso morro, bendigo a Vida. Faço parte de toda uma sistemática que sinto entorno a alegria e a tristeza, e assim sigo. Na minha janela, não pousaram passarinhos, e isso me entristece, mas a nutricionista me deu gelatina de limão, e isso me alegra.
Achar a alegria em tudo, e agradecer a Deus por tudo, por todos a todo o tempo, esse foi o conselho que Frei Francisco me ensinou.
Tento, apesar de tanta dificuldade pesarosa e dificultosa, ver Deus em tudo, e mais dificultoso ainda, agradecer pela Sua ditosa vontade. E neste estreito espaço de navio, oro. Acho que nem nos meus tempos mais espiritualizados eu rezei tanto. Este frio me trava os dentes, mas me liberta a alma. E se eu voar, eu posso ir te visitar? Sentar na beira da tua cama, cantar tua música, e te fazer sorrir? Como um passarinho marrom?
Mais uma noite. Mais uma noite. Menos uma noite. E o Sol desce no cinza e arqueija a noite densa e enevoada. Sorrio. É das noites que gosto, mas como um mercúrio, me envenena em doses lenta. O que amo me mata. Sorrio. Se me sobra, sobra tu, letra ditosa da pena. Inclina-te em minha ordem, pois ainda em claudicância eis que mando o teu ditar: escreve, escriba; se não como testemunho, como ao menos um alpendre de verdade para quem ler como memorial. Se me cabe escudo, agora liberto-te, a adaga oculta que guardei para a noite memorável quando me amavas: Diz-me, Deus - a qual roga os miseráveis, quão longo e dulce suplício é esse que me embute, se nunca pedi ou desejei galardão de santo?É pela minha relutância, tal qual Cupertino, que me fazes assim? Sou filho da porta estreita, e por ela passei n vezes sem murmurar, mas, quando me põe no sopé da morte e vejo eles tão distantes, sinto-Te mais ainda. Não te abstém, força minha, Corre Tu em meu socorro e salva-me nas excelsas glórias, pois da porta santa abri para chamar Teu nome.
És o Deus de Dona Antônia, o Deus que ela há tanto e muito rezou e que nunca foi confundida. É a Você que clamo nesta hora de minha solidão e amargor.
Eu acho, que eles chamam de milagre. Eu chamo de vida. Eu chamo de viver.
Ora pelos meus, e salva a minha (ela) do laço do passarinhedo, e quão a minha vontade, que seja inferior ao Teu querer. Por isso lhe invoco, glorioso Jesus Cristo, Filho de Todo o Poder Criador que me amou primeiro, atira-se no precipício que me encontro e reclina teu Bom Ouvido para ouvir esta última prece: Deixa as lindas garôtas ouvirem e deixa os Céus turvarem. Encosta-Te em mim e abraça-me, para numa última vez, unido a Vós, possa sentir o amor o querer, e estando na mais alta dificuldade, sê Tu aqui meu animador, e dá me o riso. Alteia meus olhos, e reconecta-me ao que perdi para que encontre. Dá-me vida para que eu possa terminar a promessa que te fiz, e escondido dentro do Teu Sagrado Coração, não me vejam, sintam, ou possam agir de mau juízo de mim.
E estando eu contigo, que você me alivie cicatrizando todas essas chagas para que eu, estando junto a Ti, possa apenas me glorificar de Você ter me acolhido e restituído tudo aquilo que perdi - e vagarosamente - retorna ao oculto de minha mão, ou como nos diz o profeta: "retorna em mim o riso, e faz-me viver". Dando-me, tais poucas três cousas que lhe peço, rugirei como o Leão de Baoz para que não Maculem teu nome, e sei Teu Capistrano. Ergurei elogios e honras, e mandarei promulgar Teu Nome, pois nesta presente agonia e sufrágio me valeste.
E que eu só leve alegria a todos os corações, amen. E de paz em paz, roguemos ao Senhor.

Alto! O Sagrado Coração está comigo!

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