terça-feira, 31 de maio de 2022

Naquela Mesa.

 Ao meu avô, com votos de alegria.

Sons de címitarra entrecortam tua voz - lâmpejo de seriedade no ar de ironia que nos circundeia.
Não queria lhe ver em cama posta, deitado como se esperasse fim algum, mas queria te ver como sempre lhe vi em minha infância e juventude: eternamente a trabalhar na bancada da sua oficina, arrumando tudo, ajeitando as coisas do vizinho, me ensinando a mexer nas ferramentarias gerais, e me ensinando como se troca as correias.
Foste e é por enquanto o (claudicante) elo que restou de Fabinho. És minha raiz e sou tua foz. Me miro em teu projeto de vida para ser mais e melhor. E tudo que vos disse no teu 80° aniversário, vale ainda. Tudo. És meu pai, amigo, profeta e professor, que em poucas lições me ensinou muito sobre a vida e os aspectos que lhe encerram: conversar, rir, olhar nos olhos de quem merece, não ter medo do cotidiano/comum, saber como se efetua um trabalho para não o refazer, e principalmente, não desistir da felicidade.
És sinal principal e primordial de perseverança na minha vida, e não menos que um justo obrigado lhe devo - talvez minha profissão, e a remissão de meu pai; pois quando fui eu o pai de meu pai, você foi o meu irmão mais velho. E quando a Véa foi embora, você foi o primeiro que correu atrás de mim, e eu agora, me preocupando com você, me fez te olhar nos olhos e prometer que venceria para te dar orgulho.
E eu, tão vencedor de tantas batalhas, ousei prometer nada impossível, mas o que me cabe para te dar paz e saber que estou dentro de nossos preceitos - você que me ensinou sobre a Boa Piratininga, sobre João Ramalho e Bartira, que me guardou nos caminhos me ensinando cada rota e estrada, lhe agradeço por não ser o que todos deviam ver, mas naquilo que coube a nós dois, você ser o melhor avô do mundo - e sempre quando ouço Elvis, Nelson Gonçalves, Nat King Cole, ou Renato e Seus Blue Caps me lembro de você, com seu único neto que lia seus livros, ouvia seus discos, e não te pedia para arrumar, mas sim queria saber porque o fio rosa tinha que ser ligado na fase roxa do 110v.
És estrêla-auta de meu pendão. AXIOS!
Já estou em Piratininga. E essa cidade ainda é nossa. Cinza, fria, de garoa e gente trabalhadora. Estamos aí, e vamos adiante.

A benção, Fábio Magno!

Nenhum comentário:

Postar um comentário