quarta-feira, 2 de março de 2022

Reminiscências.

Lembro da terra seca, e lembro da senhora de ventre seco. Olho os Céus, e lembro das turvações, dos gostos, texturas, e de quem eu era.
Lembro do avencão pendurado na parede, e das plantas que estavam sempre nos beirais da janela, os pássaros que cantavam,  e do canto do assum preto que minha avó tinha. Lembro da tapioca com manteiga de garrafa, da tubaína gelada, de puxar capuxeta no Céu e cortar os dedos com cerol, e lembro mais ainda de quem eu era.
Mas, quem eu era? Quem eu sou? O que eu quero ser?
Lembro-me do que era na medida que lembro do que fui em algum tempo, e sei o que sou pelo que vivo e projeto na minha mão, e serei aquilo que preciso ser para mim, e no máximo, para os que me pedem algo e os levo em conta.
Sou de gostos simples, e de coisas pequenas, humildes. Gosto de tubaína, misto-quente, corinthians, antarctica, tatuagens, livros católicos do cristianismo primitivo e franciscanismo, gosto de andar, caminhar, de beijar meu amor indecorosamente e poder andar de mãos dadas com ela, gosto de ter meu tempo e me organizar, ter sempre um passo a frente dos fatos e situações, gosto de The Who, de música, instrumentos de corda, de discos de vinis, e do centro da cidade. Gosto também de sorrir de uma piada indecente e de humor negro, assim como gosto de ver as estrelas no Céu e de ver o Sol nascer. Gosto de sentar na beira da praia, comer camarão e ouvir Evinha tomando uma cerveja, com minha nega do lado, toda gostosa de maiô indo tomar banho na calunga grande. Gosto de escrever na reforma ortographica de 1921. Gosto de sorrir de volta para uma criança, e abençoar os irmãos cãos de rua, e gosto de ser abraçado. Gosto também de quando consigo tirar a pressão de mim mesmo - o que anda difícil agora que ando sóbrio, e gosto (as vezes) de receber massagem na minha perna machucada. Gosto de dias frios, com vento, e garôa. Gosto de surpresas, e principalmente de dar presente para as pessoas que estimo, e sempre quando dou presentes é algo que faça a pessoa lembrar de mim, ou algo que ela queira muito. Gosto do clima de sentar numa mesa e jogar conversa fora, falar abobrinhas, fazer caretas, e peidar discretamente quando saio pra fumar e fingir que alguém no fumódromo pisou no cocô. Gosto quando me agradam, e quando já sabem do que gosto e deixam fazer o que gosto. Gosto do Largo São Francisco, e gosto de como ali eu vejo Deus na Eucaristhia. Gosto de quando ela sorri pra mim, e quando deixa eu ser ousado, e quando ela é minha amiga e me tira o peso de existir. Gosto de como a presença dela me faz sentir alguém importante, e gosto do jeito que ela deixa eu a ter. Gosto do gôsto dela, e gosto da gesta, e gosto mais ainda, de todas essas coisas que gosto.

E gosto, de escrever.

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