sábado, 8 de maio de 2021

Snowdance.

 Será que você pensa em mim, talvez como eu penso em você? Que eu entre os marronzinhos penso num carmelo, e de lá do lado do morrete do carmo, você pensa num marronzinho? 

Em algum dado momento dessa história, seu coração vai desaguar tudo isso, e largando de lado essas coisas tão banais, separatistas e desnecessárias, e será que ao abnegar disso tudo você vai se render nos meus braços? Será que no meu cativeiro, seria você que me desataria a cadeia e diria: Toma a capa, veste e vêm? É você por quem eu esperei há tanto, há muito, há dentro, ou devo ainda deixar meu coração preso no baú dentro do mar férreo? Diz-me que é a mulher que anda pela rua sem mêdo, bebe da fonte, e deságua na foz de minha bôca.
Jorra-se água e vinho. E é a vida.
Não sei não fazer planos, e não sei me apaixonar sem desaguar em mim tôdas as alegrias de ter alguém, tanto como dentro de meu lado oculto sei de minhas inseguranças, de meu mêdo, e de tôda a mágoa que cabe naquele grito dos 15 últimos segundos da canção grafada. Eu, sabendo de mim, sei de tudo ao meu redor, e eu me conhecendo, sei das texturas, gestos, côres, e das coisas que os profetas, anjos, primeiros e menores falaram. E antes deles, sei de mim. Me ponho como um na multidão, esperando que você me note, mas pelo visto há de demorar, ou talvez seja apenas um paliativo enquanto o seu homem não vem.
E não tem nada não, está tudo bem assim mesmo, apenas deixe a regra do jôgo clara, e eu me declino do que me pede. Me vale a paz do que esse entôjo, me vale o amôr do que essa amargura, e me vale o êxtase do que esse destêrro. Lágrima jorra, coração sabe porque, mente arquiteta pensar, e o carrasco de si mesmo o acusa com régua, para que a régua o meça. Não há nada de decente ou justo, é só a vida ocorrendo, e é normal, talvez até comum.
"Você se lembra daquele dia, no Rossio, tomando as mãos de gesso na tua, aquêle pedido? Você pediu, e talvez não tenha pedido direito. Nem tudo que nos transborda faz bem, alguns transbordes são para nos afogar - matar, sabe? Distingua a água do vinho e não tenha mêdo: Tôdos morremos e tôdos sabemos de si. Mas Deus, nessa hora se faz o Juiz, testifica e setencia quem é diferente."
Faz frio, um cachorro ronca, e os instrumentos se calam. Gostasse eu que minha mente se calasse, que meus pensamentos não me traísse, e que meu coração fôsse ao meu favôr. Gostasse eu que não fôsse meu primeiro juíz e carrasco, e que o pêso da história (constatação do fato) não penasse contra mim.
O têmpo, implacável perfeição advinda de Deus, sabe de mim, de meu coração imperfeito, e dá a razão e a lágrima. Andando contra o vento, sozinho, o vento não fala - carinha, o vento não corta - abraça, e o vento não desarruma - conta um segrêdo-de-pé-de-ouvido. A lágrima cai, e independente do que se há, é de lágrima, e nada mais, é apenas o desabrochar do mêdo. Saber de mim e saber de minha ferida e imperfeição: Vêde êles; tão lindos, belos, beberrões, saudáveis, com suas posses e empregados, e presentes...
...E eu esguio, de pés cansados, feio, desarranjado, sem posses, sem empregados e ausente.
In vera veritas; Não sei falar de amôr mais, perdi a mão dos versos, mas ainda deságuo minha dôr e mêdo por linhas como ninguém, e sei de mim e minha condição, aceito-a, e considero-a. De fato, as vezes também me sento com os da tribuna e rio de mim mesmo co'eles, afinal, é engraçado: Não há quem me ame, ampare, ou console, e tampouco sei que não sou aprazível para mulher alguma, tampouco sei que sou de boa companhia e trato, que tenho muitos defeitos (físicos também) que não são os que mais podem me ajudar neste quesito.
Eu lembro da vida, de quem amo e estimo, e choro.
Não há quem se arrume pra mim, tampouco há quem se adorne pra mim, e está tudo bem. Há quem se adorne pros outros, e infelizmente está tudo bem. E infelizmente, meu coração mais uma vez pena, geme, chora e tange.

E não há nada, absolutamente nada nessa vida, que eu não quisesse mais do que a morte.

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