sábado, 2 de fevereiro de 2019

Bolero.

Se quiser me entender, venha comigo, entenda o lirismo e o meu recente silêncio, olha minha mão vazia, mas tão cheia de marcas, e apenas ouve, sente, vê. Assim como mil vezes saí de mim para ter com os outros, necessito agora, de quem saia de si.
Quando eu era novo, me sentia velho; E quando envelheci, me sinto mais velho ainda. Não há um dia que eu não me sinta preparado para morrer - e não há um dia que eu não medite no rumo das coisas.
Minhas mãos vazias ficaram, e o fardão do matulo há muito está vazio. A vitrola empoeirada, a cama cheia de cobertas, e as imagens fitando qualquer mexida na cama durante o sono turbulento. A dôr no corpo, nas pernas, a visão rareando, as dôres na boca do estômago, e a falta de empatia com a belêza fisíca, e uma dependência exascerbada daquilo que não se conhece em Tôdo, mas pela veracidade da fé já maturada.
E tudo isso, nesse intermédio, só me faz sentir saudade de intes fixos do passado:
Dá-me saudades da casa de janelas históricas, do(s) convento(s), dos sorrisos, da cerveja pendurada, dos discos nas lojas, das moças, da imagem do Bôm Jesus que nos seguia com os olhos policromados, da Dona Antônia, do Fabinho, da Igreja Ortodoxa, do baixo estralando, do Daniel Leão, de tocar beatles, de viver as sextas e morrer aos domingos, e de principalmente ser meu. Saudades de sentir frio na barriga para beijar, de rir com a mão na boa após uma besteira, andar no centro descompromissadamente, dos amigos há muito já idos, já sumidos, já sentidos. Dá-me saudade do dia que eu ainda era rei, não só profeta da estepe; Dá-me o prazer da morte pela alegria que uma hora tudo isso acaba, e a libra dos homens será meu epígrafo: Se notarem minha bondade, serei santo; Se aclamarem só minha má conducta, louvado em Cristo pela minha morte serei. A libra de Deus me acanhará e me dará (espero) o convívio dos eleitos.
Deitado, vejo o côrpo dela quarando o Sol no meu quebra-luz, a abrir a janela, vendo o Sol nascer tão ímpar, com preguiça, me movo. Sinos tocam em algum lugar no espaço. O vestido curto evidência as coxas, que se sentam ao meu lado, e o riso morno denuncia o gostar, e o cabelo se confunde com carinho, o vento entra pela janela, e o sôm da voz me dá o sinal da dobração dos sinos, deitado com a cabeça em suas pernas, esqueço de mim, e morro no infinito de sua existência, e ao colher o último pensamento, antes de fechar os olhos, sorrio, pois enfim no último minuto tive o que lutei pela vida: A paz.
Ando cansado demais para tomar partido, apesar de ter minhas convicções, e muito triste para sorrir, apesar de querer fazer alegrias nos mais turvados corações. Minhas mãos não tocam mais a moça de vestido curto, e tampouco sorvem o mel da abelha, apenas querem rezar sintomáticamente, e alisam a barba, atestando que renunciei (a pouca) beleza fisíca que tinha, para não viver pelo mundo, e meus cabelos crescem para que a tonsura de minhas idéias não seja dolorosa. Me sinto confortável em poucos bandos, com pouquíssimos amigos, tomando o incrível café da moça de nome egipcío, me sinto bem quando louvo as coisas pequenas, puras e simples de coração - as borboletas que em suas asas levam a minha oração a Deus como mensageiras, na minha cachorra, nos archotes que ascendi no peito de meus conhecidos, quando pude levar o Evangelho, nos porres homéricos, no frango frito do Julioso, no vento que bate na beira do mar, na ruiva pequena, naquela história não terminada, dos barcos na marina, dos irmãos sendo irmãos, e da vida dando seus pequenos nuances. Sinto saudades da vida antes da vida.

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