segunda-feira, 17 de abril de 2017

Mestre Jonas.

Há, em algum lugar, uma alma que se arma e respira para continuar a descer entre as águas fundas, e se perder num vasto oceano, longe de tôdo areal e cais, apenas pelo simples fato de ser, de ter, de estar. Em algum lugar, há uma alma que não se casa com as outras, e foge desesperadamente de seu local apenas para ser livre, para ter a liberdade entre os dentes, e para ser feliz a sua maneira.
Eu não preciso de um lutador que lute por mim após que meus dentes já estejam quebrados, assim como não preciso que cozinhem para mim após que eu já tenha aprendido cada tempero e sua utilização, assim como não preciso de quem me ame após que já bebi cálices de solidão, a nela aprendi a ser. Não preciso de um carroussel de sensações, pois até mesmo na mais inebriante volta, no mais alto pico de sentimentalismo, ele para de rodar, e eu fico. Não necessito da falsa bondade e dos amigos sazonais, assim como não preciso dos críticos que com suas filhas e esposas atacam a veemência de ser, e não deixam cada pessôa viver sua vida, seu caminho, por conta de alguma regra vigente. Regra vigente? Doutores, mestres, senhores, juízes, vocês tôdos são burros, vocês tôdos carregam a parcialidade em vossos bolsos, e na hora da humildade, vocês não passam pela porta estreita que minha gente passa, não comem do feijão caroçado que minha gente come, e não tem a alegria de uma cerveja de fim-de-feira que a minha (amada, dulcíssima) gente tem, vocês com seus carros de ano, com suas coberturas no centro, filhas mimadas que são prostitutas-de-babilônia, a vós, Senhores de um Sinédrio vazio, lhes dou meu perdão e minha benção. Nós, os pobres, os do degredo, nós temos a pobreza material, mas temos a riqueza espiritual: Tivemos pais que nos botaram no caminho da fé, que não nos criaram pros seus vícios de carne, nós tivemos amigos que nos abraçaram na tristeza, e nos louvaram na alegria de um gol, de um copo de cerveja, ou de um filho que nasceu, nós temos amigos que intercedem por nós na hora da solidão, da dificuldade, da tristeza, e não fazemos concessões ou botamos na balança, esperando um favôr-de-troco, não, nós não. Somos reis, somos profetas. Nós, os degredados, anunciamos o evangelho do Nazareno, de um Deus Triúno que de forma ímpar morreu por cada um de nós - incluindo vocês, mas, que vocês nem se dão a notar, nem a praticar, nem a pensar. Ir na Igreja - independente de qual - não lhe faz mais perto de Deus, e sim da comunidade. Dar uma parte do seu dinário, não te faz perto de Deus, mas contribui com a obra d'Ele, dobrar seu joelho, abrir sua alma e sangrar, isso sim se faz efetivo, isso sim faz o Divino estar com, em e entre você. Isso te ensina o porquê da porta estreita.
Houveram dias que eu achei que nem ia sobreviver. Em outros, eu apenas morri. E estou aqui, natimorto, escrevendo essas verdades que pouquíssimos irão ler, e desses poucos, alguns compreenderão, e desses mais poucos, uns dois, muitos três, se identificarão. Os poucos reis, os poucos profetas, os poucos escribas, eis aqui nós tôdos, escancarando nas vossas faces uma verdade, que mesmo se tangessemos vossos olhos, vocês ainda sim não entenderiam, nem sentiriam. por vocês eu escrevo e medito. Por vocês eu me entristeço.
Quando eu estiver longe, não me desperte, deixe-me longe ficar, você não sabe o que se passa com minha mente, nem em meu coração, deixe que no meu transe eu mesmo saio, assim como da tristeza estou eu mesmo saindo, assim também como da alegria estou provando sozinho - e por mais que queira dividir esta alegria, ninguém ouve, ninguém sente, ninguém lê, e quando notam os raros sorrisos que minha boca esboça, perguntam-se em porquê: O que me leva a rir e balançar as mãos unidas pro Céu? Senhores Doutores do Sinédrio, podres pela riqueza do dinário, carrego em mim Algo que sempre tive, mas, agora se manifesta mais forte que em qualquer lugar que eu vá e esteja, Algo que põe comida na minha boca, e me dá o de beber quando padeço, e tem sido mais forte que meus próprios pensamentos, e quando caio em dúvidas, tem sido meu Único acalanto, maior que a própria música de Cecília. Carrego dentro de mim que não mostro para tôdos, mas, a quem quiser ver, partilho, e a quem sente, me incluo, e a quem vive, me compreende. Vivo uma intensidade, e uma cadência de uma supernova, que como no fim, agora me resta apenas a queda, apenas o chão. 

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