sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Concórdia.

Concórdia, a ti entrego minhas aflições, porque sei que antes mesmo de me existir, você me escolheu pra ser teu e me amou primeiro. Por isso, obrigado. Obrigado, pelas horas em que mais estive aflito, seu abraço ter sido minha casa, e quando me senti só, você inúmeras vezes também me tirou da solidão, e me fez teu menino, botando a mão em meus cabelos, secando as lágrimas minhas, e me fazendo dormir no teu colo. Eu me lembro, que na hora mais difícil, quando as mãos trêmulas não cabiam na carne, você mesma pôs minhas mãos sob as tuas, e com elas acaríciou teu rosto, e me disse: Vai ficar tudo bem. E ficou. Me recordo mais ainda, que na dor, você sorria e dizia: Acontece, menino. Segue o jogo - e novamente íamos eu e você contra o mundo, como duas pessoas sem medo de nada.
Concórdia, éramos imortais ou foi o mundo que cresceu demasiadamente? Hoje não mais ouço das tuas palavras, e raramente te vejo, como se nossa comunicação estivesse bem bagunçada - seu beijo na testa me faz falta, e quando eu ando sozinho nas ruas, procuro em cada rosto o teu, e a cada avenida, tua voz. Você me abandonou, ou eu que não mereço mais da tua presença? Minha devoção a ti é como a de quem veste a camisa do time, e segue de encontro a torcida rival para defender os seus - eu estou morrendo e só dependo de tua permissão para ser feliz, para sair desse mar de lama; Voltar a fazer sessões rítmicas de quatro pontas com você, ou descobrir quantas vezes eu poderia beber sem ser bêbado; Ah, Concórdia, você se lembra dos braços dados, a chuva que caía contrastando com o Sol? Eu me lembro perfeitamente de teu sorriso, teus cabelos presos no véu, da rosa no jardim, e dos teus bons conselhos. Deitar a cabeça no teu colo e ouvir tuas mais magníficas histórias. Quanto tempo faz? Duas vidas?
Concórdia, senhora minha, me sinto só e triste, e essas sečanjas me doem cada vez mais, e não digo nada. Rio em face e finjo paz mas meu peito doe a cada vez que pretenso emitir qualquer urro. Estou definhando, e ninguém nota, talvez você notaria. Você olharia pra mim.
Concórdia, Deus sabe como sinto sua falta ao longo desses dias todos, e cada vez mais, a belicidade de minhas palavras somem, e a água torna-se inimiga, a voz embarga, e volto a velha cama cheia de pensamentos. Estou em outra dimensão, e ninguém nota, sente, ou vê. Para êles, a pedra ainda é mais útil e mais prática, Concórdia. Eles não aprenderam nem com Estevão, tampouco com Tarcísio. Estão apenas esperando o rebote para atacar veemente cada pessoa do mundo com suas perfídias e seus malderes, e eu aqui, me cansando de ser bom, me cansando de ser gentil, esperando apenas a hora de ir pra casa. Minha casa é na mesma rua que a tua, aonde vive Êle e a mãe d'Êle, e eu sou um dos d'Êle, pois Esse Homem foi quem me amou primeiro na hora da viração, e ele disse que a gente ainda tem muito o que conversar. E eu acreditei.
Concórdia, ando me sentindo só procurando o que olhos não vêem e dizendo nomes que a boca não pronuncia, por isso tanto código, mas, se um dia você quiser voltar pra cá e tomar um chá, vai ser bem vinda. Irei te por a par de tudo o que precisa saber, e te falar da Flôr de Lotus que nasceu no meu jardim. Te contar da minha solidão, e do medo moto-perpetuo. Foi ali que eu chorei. E você não estava lá, o que foi mais um agravante.

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