sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Caso Você Queira Saber.

Morrer é fácil. Difícil é você se desprender da matéria, das pessoas, do sentimento feo, de tudo aquilo que lhe magoa perniciosamente, daquela noite.
Sim, eu me lembro: Era escuro, tinha-se denominado Noite Illustrada, a avenca nem mexia mesmo havendo o vento; Lembro também da areia, e na ponta da praia que havia o Beira Mar, uma Lua quase cheia, estrêlas e ninguém. Apenas minha pessoa, e minha garrafa de licor. Apenas um minuto, um silêncio, um berro. Era eu negando aos quatro ventos. Sim, eu me lembro: Disse que sim, mas o núcleo era não, jogou promessas e bençãos, mas na primeira oportunidade amaldiçoou e quis os seus, mas não por completo - disse ter coração bom, mas é sujo igual aos outros. Perdoa, bom Deus. Tanto êles, como a mim mesmo. Bálsamo pras feridas é Deus, cerveja é anestésico. O arsenal bélico ainda não acabou, mas é dito por inteligente, sobressair, fazer pilhéria, e pagar de herói: Vai, São Baden, diz a êles, vai lá Dona Antônia, diz também; Manda dizer que a porta estreita é pior, mas a recompensa não é aqui, nem agora. Dói, mas logo melhora, logo passa.
Sim, eu me lembro: Gente que não tinha minha gênese me tomou e acolheu, cuidaram das feridas e deram um gás incrível na minha vida, torceram por mim e em algumas horas da solidão, estavam bem muito mais presentes do que qualquer outra pessoa, eu me lembro.
Sim, eu me lembro: Da música que ninguém gostava e hoje todo mundo é fã desde quando eu hasteava esse pendão com poucos gatos pingados, de tempos tão idos desde antes d'O Sionita, antes do Ox, antes d'eu ser eu. Eu me lembro dos discos baratos, sebos, garrafas e a solidão - me fez forte, e não herói. As pessoas confundem dor com Santidade. A dor pode ser mais associada com vencer na vida, paz de espírito, fortalecimento mental/espiritual, do que um grã altruísmo - dor todo mundo sente, mas quem sabe lidar com ela é que faz a diferença, quem sabe velar com o silêncio, quem sabe segurar a dor e exprimir em tons, cores, nomes e actos coisas tão lindas. Acima da lindeza de tudo, reina a Lotus.
Sim, eu me lembro: Da menina de calça boca de sino, botas, jaqueta de Fredera, que me encontrou na estrada, dizendo que volta comigo pra descansar um pouco da vida, pra repousar no meu abraço, pra esquecer um pouco o mundo lá fora, pra viver por si, por mim, nós. Depois do Inverno, veio a primavera. Sob o Céu de Virgem, firmamo-nos.
...E é só o vento lá fora, Lotus. São apenas as pessoas, é apenas meu jeito, é apenas mais um dia, apenas mais um teste, apenas mais um segundo, e assim segue. Como sempre.
Sim, eu me lembro: Me lembro da dor que eu senti quando vi a esquife da ovelha negra, e o corpo gélido do herói repousado. Eu lembro que o juíz não foi, mas que não sentiu, lembro da multidão, ávido povo que queria falar e sentir, mas eu, que tinha por ordem e direito, não pude.
Sim, eu me lembro: De tanta coisa que nem me lembro, mas posso desfiar aqui por horas, mas guardo em meu peito, tanto as chagas abertas como o silêncio que ninguém pode ouvir - apenas eu.

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