domingo, 11 de agosto de 2013

Canto Da Verônica. (I)

"O que é meu está em você, filhão." 
Meu braço, meu riso, minha alma e minha música estão na ponta da faca, estão no riso da criança, no vento frio, na maldade e no raio de luz que Deus põe sob nossas cabeças. Meu amor se encontra esparramado nos esgotos da cidade, sobre os pés de inúmeras pessoas, sobre o olhar de inquisidores que esperam falhas e faltas, e de pessoas que nunca o mereceram (ou eu nunca as mereci, vai saber). E meu coração, deve estar penando em algum lugar, com uma linda mulher negra de laço na cabeça e suspensório, se alguém o encontrar, favor me dizer como ele está e se ele ainda aguenta moer mais um pouquinho.
"Ô Maria!"
Está chovendo. E a chuva vai molhar alguém. Que outrora caíra toda molhada nos braços meus. Não é verdade, mal pode ser. Silêncio, vá embora, me deixa, sem perdão. Mas, me desculpem meus amigos, gente! Eu estou confuso e triste, e até desgastado. Mas, a vida incrivelmente forja seus grilhões em mim e me faz mais uma vez um escravo de agosto, me fazendo dobrar os joelhos contra minha vontade e assistir na primeira fila do Leviatã comendo meus sonhos, planos, verdades e concretizações. 
"Se você quiser alguém, pra ser só seu;
É só não se esquecer, estarei aqui..."

Sinto falta do meu velho, poder ligar pra ele, e falar com ele. Se eu, um maldito, desgraçado, fudido, desgarrado, desajustado, sangrado e excluído contasse todas as coisas, e pedisse por ajuda, ele iria me ajudar, ele estaria aqui por mim, ele me motivaria a continuar, ele me daria aquele gás enérgico, me abraçaria, beijaria a testa, e se eu seguisse os conselhos dele, daria tudo certo. Como sempre deu. Sei no fundo de mim que ele sabe, só que ele não vem, não ajuda, como se estivesse contido e preso em algum tipo de dimensão cósmica. Imagine perder a única pessoa com quem você poderia conversar de igual pra igual, e que não lhe censura, mede, fala, interrompe, e ainda continua lhe amando. Esse era o meu pai. Tenho receio de ser um décimo do maravilhoso homem que ele foi. Porque apesar de tudo - creia em mim, leitor - aquele canalha foi o melhor pai do mundo. E ainda é.
Eu vejo um brumeio muito denso e espesso na minha frente, como se o Céu descesse sobre mim, ou eu me crescesse como um Anjo ou Santo Guerreiro e subisse até as nuvens. E eu não consigo ver nada a fronte ou aos lados, apenas sinto que qualquer hora um golpe será desferido - Não que eles já o foram - para acabar com todo o resto do meu castelo. 
Fui iludido na minha vida. Fui trocado, embalado, enrolado, traído, jogado, disputado, menosprezado, extorquido, cantado, matado e surrupiado. Não consigo sorrir, porque tenho mágoas demais, e qualquer coisa que o vejo não me contenta, eu quero a verdadeira felicidade, e não um motivo fútil para sorrir. 
"Ai! Se eu pudesse, fazer flores e estrelas;
Eu conquistaria você; Moça..."
Eu quero ir em lugares aonde me sinta bem, e não aonde fico com falta de ar. Eu quero poder conseguir agradar quem está do meu lado, e quero poder mostrar minha cara sem se preocupar com o tabefe que ela vai levar. Eu tô cansado de levar pedras, e é por isso que eu vivia isolado em meu Ibi. De onde eu venho, é sensato ficar isolado, porque assim nem você, e nem ninguém se machuca. Eu só queria fazer ela feliz, eu só não queria ter cíumes dela, eu só queria que ela notasse que apesar de trabalhar como um cão, e estar morrendo de dor de cabeça e falta de ar, eu tava ali, dançando com ela, e tentando proteger ela, eu só queria não querer tanto, eu só queria menos do mundo e menos ainda de mim. Eu queria cair numa cova funda e morrer, porque assim talvez eu teria mais crédito com muita gente, afinal: Quem morre vira santo. 
Se as pessoas não sentem sua falta, não corra atrás, deixem elas virem. Pode demorar, mas, elas vem. E vem de joelho dobrado, pedindo perdão, e se avergonhando por todas as injúrias. Não é história, é lição: Isso já me aconteceu. E meu pai me avisou que voltariam, e só dependeria de mim o próximo passo, e até agora eu fui feliz. Eu como do boteco sujo, eu ando esfarrapado, gosto do frio, falo com mendigos, rezo a Ave-Maria dos malditos, e ouço tudo o que malvadeza da boca das pessoas. Eu sou da miséria, e na miséria vocês querem que eu fique. E eu ficarei, estarei sentado no banco da Sé, com a cabeça em pé, aguardando a punch-line final - Ou de Deus, ou de vocês - como quem aguarda uma nova fornada de pães. Ansiosamente.

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