Estive pensando em você, e me deu uma saudade da vontade - cousa tão nossa que capaz de tu saber o que é; porque de alguma forma, eu sou você.
N'outro dia, no vagão do metrô tive a impressão de ver você; mas cabelo não era escuro, e tampouco fazia aquele olhar cínico por cima do óculos. E ali percebi que eu queria lhe ver essa noite. Para conversar, dizer do muito que trago no peito, e daquilo que minha alma anda desaguando de formas erradas e momentos incertos; ando a errar em muitas coisas buscando motivos certos no que é efêmero, e esquecendo do que tanto conversamos.
E devo dizer que vi outros lugares, flertei com novos mundos, amei outros amores; mas inexorável fui me atando a mim. Me permaneço aonde me encontraste, e aqui até hoje firmarei meus pés. Estou no mesmo lugar aonde me deixaste.
(Lembro de meu pai, que no caixão, puseram um cachecol e duas madeiras em seu pescoço. E lembro do cachecol acinzentado que havia na volta de seu pescoço). Talvez tenha sido ali que me dei conta que minha côr favorita foi cinza, e onde me despedi dos excessos para aprender mais no silêncio e na calmaria - do hedonismo disse não, e da desregra abandonei - me isolei e reconstruí aquilo que só a mim é digno de orgulho - mas sei que de você arranco um riso bobo.
Hoje, a caminho de casa, o Sol se pôs alaranjando, ferindo uma têz royal no Céu. Risquei os dedos no ar em riste, como se de alguma forma esse carinho nos interligasse, e pensei novamente em você (espero que não se importa, mas até imaginei sua presença) e nos sons que ficaram suspensos; nos cachimbos que não fumamos, nas conversas de varar madrugada no alpendre, e em tanta coisa que de alguma forma você sabe, você sente, você - em qualquer forma que esteja - entenda.
Sinto, então, que ficou muito para caber, e por ora me contento que seja esse vazio - espaço estreito de um navio - que diga tudo de maneira mambembe, ridícula, debochada, e inerente; assim como no silêncio pus os dedos ao Céu para te encontrar, meu pensamento viaja com perguntas, dilemas e desabafos, e no divã de seu silêncio, desaguamos um no outro uma saudade não fictícia, mas de um futuro, um porém, a virgula consumatória do universo que nos ousa em separar no longo fôlego de curta vida que teimo em gastar. O Sol já se pôs, e a noite repousa em nossas mentes.
Eu não vou lá para fora.
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