sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Waterfall.

Ele me disse que um bom pastor, pastoreia suas ovelhas em um silêncio. Se você quiser ser um pastor aos moldes de Hermas - me disse, olhando para o vazio - apenas faça da mesma maneira que vem fazendo. O não-reconhecimento é a maior riqueza e glorificação; e de fato concordei; Suas palavras me atingiram com a tenaz em brasa de Isaías e sem titubear entendi que ali havia mais do que o que sempre conversamos e prontamente me recolhi ao silêncio: subitamente entendi que a vida aconteceu ali, e finalmente fui contemplado com o milagre diário da simplicidade, da qual poucos de nós temos a parca capacidade de entender.
Porque quando me vejo assim - perdido diante da movimentação descompassada de meu coração - sinto-me perdido e confuso sobre minhas atitudes e pensares que me magoam ao exigir o melhor de mim para eles; mas nunca para mim, e neste momento é que gostaria de me enroscar no seu cabelo de cheiro de uva como parreiras frescas que descem sem saber porque - mas mantidas em um verticalismo que inerte, provém toda a força; quando atrelados e contar meus medos, delírios, raivas, segredos e sacras no sopé do seu ouvido (mesmo sem o merecer). E morrer nos seus braços olhando seu rosto e ouvindo sua voz me pareceria a melhor maneira de conhecer as Excelsas Nuvens. Me esconder na barra da sua saia como uma criança que tem medo da ira da natureza como o trovão rugindo lá fora, e sentindo o perfume dócil de sua voz, poderia me esquecer de mim para que você m'o cuidasse, com correia, candeia, auxílio, luz e socorro. Ter sua presença por inteiro, e de inteiro a inteiro, por mais um dia com você para menos um dia sem você.
Diz São Paulo o Apóstolo que "quando se é um menino, fala-se como menino; sente-se como menino; e vive-se como menino". Ora, mas no Getsêmani das palavras, aonde inequívocamente elas não pedem licença para nascer, e brotam das têmporas e das velas içadas das mentes que padecem, logo (ei-lo), desemboca da bôca um gôsto amargo dado a profundidade do que se sente no âmago da alma e não se promulga a dar como dôr-de-pêito: o parto do vômito de tôdo um desaguar da vida jogada como caxangá, e lágrimas tão quentes que eiam a queimar e ruborizar a pele, cujas mãos preteridas ao cargo não secam, apenas queimam-se juntas, dissonando naquilo que enfim não tarda a chegar e tampouco a acontecer. É sim, de fato, a violenta força da alma silenciada, abnegada, e furtivamente isolada, filha do ocaso guardada no seu jardim secreto, tendo dentro de si o tudo - o nada. Apenas esperando a ser veramente querida e veramente amada; e deixando de ser a nascente, receber-se enfim, como foz.
Logo, enquão escrevo essas linhas eu me pego pensando no meu passado, e disso pouco me orgulho, e menos ainda me honrando irei a ficar; pois parafraseando o dito Santo "não fiz tôdo o bêm que gostaria, mas o mal que não quis ocasionar, êste o fiz com demasia." Logo, entendo do muito de meus erros, e o pouco de meus acertos no enfim desejo que sempre tive, o dito "viver". 
Entre becos, vielas, estradas, vilas, conventos, casas, ocupações, apartamentos, casernas, moradas, grutas, planíces e desertos, eu fui - e antes que digam de mim, eu sei de mim e das coisas de meu coração (por mais que não as compreenda por completo); e dos lugares que fui, deixei-me num tanto, e levei outros como fiança, e assim, aprendi da vida, e aprendi de mim. Amei os outros, cuidei dos que pude, perdoei como deveria, e peço ainda hoje perdão pela pilha titânica e magna de erros que deixei no caminho.
Se fui quem acho que fui, é longe de mim uma graça Divina ou consôlo pois muitos foram os meus dolos contra mim e os meus. Mas se me atinge a graça Divina e o consôlo da Dôce Virgem Mãe das Candeias, nunca haveria de ser por merecimento meu, mas sim por misericórdia d'Ele; e assim eu me permaneço. Pois tudo o que tenho, tive e terei, todas as coisas nunca haveriam de ser minhas, mas sim tudo foi, é e há de Ser d'Ele. E o que escrevo nisto deixa cair por terra quaisquer outras dúvidas, está completo.
Posto em uma encruzilhada, olho aos pontos cardeais e nada acho, a não ser possibilidades, sem mensageiros que possam me apitar em qual dos cardeais seguir, e se sigo, mantenho-me sobre a tutela de Padre Deus, e espero de mim o mínimo para viver: não ser um babaca.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Ой, мороз, мороз.

Sinto que vens de algum lugar. Percebo que tomas a sua forma antiga - porém cada vez mais atual - e não tarde a vir; logo, espero você e me lembro de tudo o que aconteceu antes de você chegar. Lembro-me sistematicamente do versículo que dizia: Eis que vem, cavalgando como um general em batalha... e não sei até hoje precisar de onde vens ou como vens, mas sinto. Teus sons, formas e côres não me enganam, e eu sei que eles, enfim, me seduzem de certa forma e me inteiram para ser completo, logo quando me encontro num total estado de destruição, destituição, ou desilusão. 
És forte, e mais forte és do que todas as outras.
Se vens então, venha logo. E inunda lá tu a casa, toma a carreira como que de um cometa e invade a cozinha, passa pela área de serviço, a bica, bacia, banheira, e deságua violentamente. Como uma água corrente, vadia, que desaba dos montes apenas para poder ser em êxtase e maestria, fazer ser aquilo que ninguém mais faz, ou é. Aquilo que se cabe. 
Tenho pressa de abraços, de cafunés, e do licor contido no braço. Tenho uma ligeira e corriqueira vontade de ver e viver a vida, entendendo e saboreando os bons gostos que me permeiam e me fazem (ainda) bendizer aquilo que me cabe. O vento frio que bate no rosto e bagunça o cabelo e arma a barba, e que ainda trás dentro do seu bojo um refresco de vida aos pulmões outrora rasgados, mas voltimeia tão vivos, tão safos, tão ansiosos pelo porvir...
E não esquece de mim como esquece o tempo de seus percalços, tampouco das coisas que ficam pra depois, e num bolsão de espaço se guardam. Tenta - ao máximo, vão e vil contexto daquilo que cabe lá na mente humana - lembrar de mim com uma singeleza, o beijo no rosto que se dá antes de sair pra vida, cair no mundo, e ver o  Céu mudar de côr. Recorda-se assim, de mim como cousa alguma que se esforça, se estreita, comprime e benfaz, mas ainda sim não se comprime a ponto de se deitar em uma resma digital de escrever. 
Se me caibo numa linha, me acabo em um texto, e tampouco morro num catraco, mas renasço num cansaço que nunca morre.