sábado, 30 de abril de 2022

Rua dos Ingleses.

 Hoje eu acordei com uma joaninha na minha casa. E me lembrei de tua perna.

E vi o Céu cinza, do jeito que amo, gosto, quero e desejo.
E esse frio, extenso, garoando e cinza, me abraçou e exultou meu dia em torná-lo bom, e choveu fino; teve um incêndio no Glicério, a Boa Morte continua quentinha nos dias de frio e voltei a estudar latim e grego. E eu me senti vivo novamente pegando aqueles livros antigos do monge e podendo-os ler e tendo a justa correção das palavras e escritos - novamente, me tornei o letrista que almejava ser, ao poder usar as letras em ordem.
E as pus?
Pus apenas em ordem; mas por algumas vezes não pude lê-las. Mas isso não significou que elas não estivessem ali, em minha frente. Não significou nada, de vera. Eram apenas letras que aprendi a ler, re-ler, entender, e vê-las de nova perspectiva; e quando pus-me a lê-las com novos olhos, pude ler melhor, bem e mais. Ah! E o óculos me ajudou, de fato.
Ando-me sentindo novo para aprender, e finalmente aquele fôgo que ardia em meu peito acendeu novamente, tangeram-me os lábios em brasa viva, e eu pude então ver que saíram de mim os grilhões e os dardos não mais perniciavam minhas carnes. E de meus olhos, jorravam brilhos, e eu sereno, olhei e sorri.
E escrevendo, olhei o mundo, e vi três passarinhos voando na garôa, denotei um sorriso bobo em minha barba, e soube: era Deus.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Mystify.

 Hoje faz um ano que conheci a mulher de minha vida. E logo hoje, estou apartado dela. 

Há exatamente um ano eu estava entrando naquele saguão de hotel após o abraço apertado dela que me desconcertou, e sentando numa mesa do lado de fora de um restaurante. Sentamos, rimos, nos divertimos e conversamos e trocamos presentes - após um tempo conversando pela internet, rolou essa oportunidade que nos agarramos firmemente. Ela estava linda, de vestido preto, salto, unhas vermelhas e um sorriso que me induziu a introspecção.

"I'll have you just the way you are; I'll take you just the way you are". 

Conversamos da vida, do mundo, da igreja, da ordem, das músicas, e sentamos cada vez mais perto. Em meu fone tocava "Lágrimas Secas" de Jorge Mautner (e se você estivesse de fone seria Mystify, não é?). E quando dei por mim, minha mão estava na dela e minha boca selada num beijo com a dela. 

"Lágrimas negras caem, saem, doem".

E que beijo, Meu Deus! FOI ALI!

Parafraseando Charly García: "Sera que senti la luz de tu amor?"

E ali mesmo, a pedi em namoro. E ela prontamente aceitou. Dei minha jaqueta nas suas costas, enquanto acendia um cigarro, e eu vesti meu colete "pullover". E ela trocou o salto por uma sandália. Isso foi numa quarta feira. 

"Eu acordei com medo e procurei no escuro alguém com seu carinho".

Nos vimos no outro dia, a noite, andando pelo centro velho, bebendo vinho barato e achando as afinidades do passado no vão do MASP, e na sexta nem trabalhei, consagrei meu dia a perfeição mineira. A levei nos meus lugares, dei a conhecer os meus, e cuidei de ti como se fosse a maior e melhor coisa do mundo - como ainda é para mim. 

"And with her arms around me tight, i see her all in my mind; And she'll always be there, my love don't care about time".

Ela voltou para Minas próximo ao dia 1° de Maio. E eu, preso ainda em grilhões da minha mente traiçoeira, tentei de várias formas lutar para que mantesse o efeito da anestesia que ela deixou em mim após seu arrebatamento em minha existência; pela internet conversávamos, ríamos, dividíamos música, sonhavamos e falavamos de amor, de vida, de tempo, de Deus e seus Santos, e danava-me a escrever versos, canções, palavras e teses pela amada. E ela, a mineira musa de minhas canções e pensamentos, deixou-se fazer sacrário e me guardou em seu peito e fez segredo, e até hoje, só de ver sua foto, ouvir sua voz, ler sua mensagem ou sentir sua presença, meu coração exulta e se turva da mesma forma quando tive meu primeiro êxtase místico, ou quando subi num palco para tocar. 

"You're in my mind all the time, i know that's not enough; If tge sky can crack, there must be some way back; For love and only love".

(E agora começou a tocar INXS enquanto tomo café num bar perto de casa. Mas não era Mystify. Era Beautiful Girl).

Pouco tempo depois, fui pra MG na sua casa, e ficamos um fim de semana; eu sempre tive medo de avião, mas fui com a cara e coragem e mesmo desmaiando no vôo de ida e de volta, fiquei em êxtase em estar naquela presença, naqueles braços, naquele momento sunlime como a Transfiguração no Tabor, mercado, cerveja, discos, risos, igrejas, e você. Lembro de você, ao me levar até ao aeroporto, colocar I Lost My Head para irmos ouvindo, e eu querendo cada vez mais que aquele caminho até Confins demorasse. Antes de desmaiar no vôo de volta, recebi meu primeiro "eu te amo" de você.

"Vem me dizer se a cadeira vai morrer, de tédio, sozinha, sem você".

E pouco tempo depois nós vibramos com seu emprego em São Paulo, lembra? Foi um difícil começo. Aquele abraço na rodoviária foi um dos abraços mais gostosos que recebi em minha vida. Aquela hospedaria, o primeiro mês se dividindo em duas nos serviços, a preocupação, mas tinhamos um ao outro. Morar e trabalhar perto do cartão postal de São Paulo; a famigerada Paulista. Perto da casa franciscana; 

"Não vamos nos transformar no casal clichê do clichê". 

E logo após um tempo rápido, fôste pra Santa Cruz, e vieste talvez o nosso "Bom Tempo" (de vera, cada tempo contigo é bom): bebiamos, ríamos, conversavamos e acordavamos ao som das maritacas, e sentíamos alegria em no domingo a noite ir na Casa Franciscana da Borges Lagoa,  procurávamos paiêiros, unhas em gel, Game of Thrones naqueles sites clandestinos, e teve aquele snooker horrível que comemos a pior porção de carne de SP. 

"Vida y sangre, suave sons".

Fomos pra MG, voltamos, descemos a serra e te dei a honra de comecer um de meus heróis (meu avô - "Que bandeira que você deu, que bandeira, não me entendeu..."), e você conheceu a Cookinha, e por muitas vezes quão perdido, por mais que não parecesse, lhe ouvi, e ouvi muito, e ouvi bastante, tanto que eu procurei ajuda, fui em médicos, reconheci meu vício e aflição, desenterrei do meu homem velho aquilo que mais me afligia e me dava medo, vergonha e raiva - e fiz por mim, para ser homem bom a você, e comecei a construir isso, você mesma bem viu e por algumas vezes te pedi paciência nesse processo, a qual algumas vezes deste com a maior zeladoria.

"I'd called you a bargain, the best i've ever had".

E de ti, sei que aprendeu a ter paciência, a gostar de SP, de ter zêlo, e de gastar seu tempo comigo. Pouco tempo depois, rolou a chance de ir pra um lugar melhor, e você teve seu atual lugar de morar, que tem a vista mais linda da cidade velha, lembro de ajudar na mudança, de te dar força, arrumar as coisas, cuidar, e te ajudar junto com sua mãe, e tentar a todo custo te fazer feliz, e pouco tempo depois, sentíamos saudade do barulho das maritacas. E lá, atualmente, mora a coisa mais importante para mim agora, parafraseando William Blake "Ali dorme uma, a minha, rainha."

"E tudo o que você quiser, tudo o que você pensar, será; Tudo foi feito pelo Sol".

Sempre tive o gênio difícil, e sempre fui apegado a histórias e momentos temporãos, mas, sei de mim, de meu coração. Sei que você nunca achará alguém tão zeloso por você, que te ame, se sacrifique, dê o que tem, e te guarde como eu, e mesmo que danasse a procurar agora, não acharia outro barbudo que te levasse na missa, fizesse um desayuno, te levasse nos points gastronomicos, te defendesse de assalto, fizesse massagem no seu pé quando chegasse cansada, ou que sempre procurar algo para demonstrar seu amor - seja por rosas, canções, sorrisos, beijos, ou "você quer algo da rua?".

"Você não vai encontrar outro poeta louco, que junte seus versos com rimas de amor, compondo com carinho um samba de ninar pra te fazer dormir".

Me deste um aniversário. O único aniversário que tive na vida, aonde reuni os meus amigos, e te vi linda e perfeita, aonde você me cuidou, esteve comigo, e depois ficamos até tarde vendo filme. Aquele dia foi um dos mais felizes da minha vida.

"Although we're apart; You're a part of my heart; But tonight, you belong to me".

E eu, nunca encontraria mesmo se danasse alguém a procurar agora uma mulher tão bela, tão amiga, de bom gosto musical, ótima cozinheira, que tem o melhor chameguito e que com um só sorriso me livraria de todo esse desterro que estou passando. 

Perdemos nós dois, pelo nosso gênio, nossas dificuldades, nossas falhas, e por sermos tão incríveis. Na mesma medida e proporção. Mas, o que se perde pode ser encontrado. E mesmo que não queira ser encontrado, uma hora se é visto; e eu gostaria de encontrar o que perdi e nunca mais perder. E você? 

"Na simples e suave coisa, suave coisa nenhuma".

Ah, diz-me o profeta que ainda é tempo e ainda é momento, e que se deve demonstrar o gostar a cada segundo. E eu, pelo café na sexta da paixão e pelo post que me mandaste segunda, me mantenho ainda fiel ao saber que teu amor é meu, e vice-versa. Ainda te dedico os escritos, a sabedoria, as boas vendas, os êxitos, graças e glórias. Te desejo a boa vida, o excelso, e todas as sortes e bençãos de Deus, por intermédio do Bom Santo Antônio.

"Since I've been loving you, i'm about to loose my worried mind".

Te desejo Daniela, feliz um ano. Mesmo que não seja um ano. Te desejo meus abraços, beijos e massagens no pé que chegam até você pelo vento, e te desejo meu amor, que ainda é todo teu. E se entenderdes o que escrevo e escrevi até aqui, estiver com a cabeça fria, e sentir tudo o que sinto, e ainda houver um gostar por mim em você, por favor, desça e vem ter comigo, pois se manter estático perante a vida nem sempre é boa coisa, ceder, ser humilde, entender e ver a situação como um todo também é preciso, e sei que dentro de seu coração também tenho um bom e belo espaço. 

"You mystify, mystify me".

Sei da pressão da tua vida, de teu emprego, da luta constante, e sei também que você é difícil de lidar como eu também sou as vezes, mas nós temos uma opção: Ou finalmente nos damos a chance de trabalharmos, dialogarmos, e sermos a "alma gêmea" um do outro (e você sabe do que estou falando porque já entende minha linguagem), ou você deixa esse amor passar, e vai se frustrar cada vez mais, se entristecer e se quebrar, achando que munca teve amor ou gostar, sendo que de todos, quem te ama, quer, luta e daria todos os dons para te ver em paz tem um nome: Marcus Vinicius. 

"Não se admire se um dia, um beija-flôr invadir; A janela da tua casa, te der um beijo e partir; Foi eu que mandei o beijo, pra matar o meu desejo; Faz tempo que eu não lhe vejo, ai que saudade d'ôce". 

Feliz um ano, Neña. 

(ainda) amo você.

sábado, 23 de abril de 2022

Segunda Canção da Estrada.

 Modéstia a parte, tenho os melhores amigos do mundo. E posso provar.

Em meu lamento de dôr, tive amigo que foi pai e me deu comida e me livrou do sufrágio, em lamento de penúria, benzeram minha casa e levaram-me a eucaristia, na hora da solidão, sentaram-se no tapete de meu chão e me deram alento e me animaram, e quando dormi na rua, mandaram me buscar e tive teto antes do meu teto; quando fui injustiçado, levantaram a voz e rugiram como leão para que eu fosse restabelecido; quando pedi por alegria, pararam tudo e desceram comigo para retomar a alegria primeira.
Quando eu me encontrei, encontrei o melhor de mim em cada um daqueles que ofertei meu melhor: Aos que dei amor, recebi. Aos que fui herói, recebi coragem, dos que alentei, ganhei consolo; e dos que enviei, recebi dobrado provisão. E assim, cumpriu o peixe que me disse ao pé do ouvido que não se é desamparado quando se tem fé - vi então, a glória de Deus acima de mim, e nem pude me curvar em vergonha em respeito, pois Ele amavelmente me pôs em seus braços e me amou mais do que pude O amar.
Ganhei pai, irmãos, sobrinha, amigos, e finalmente achei a paz dentro de mim que jamais pude ter ou imaginar. Finalmente, acordo e não me acho feio, estranho, demasiado barbudo, e tenho o meu tempo para minhas coisas; e agora, me reencontro e vejo o quão radiante e forte estou diante de tudo - e mesmo quando a onda pareceu virar minha canoa, os tanoeiros que me ajudaram seguraram firme comigo; e eu venci o mar férreo.
De fato, sei que ainda há três coisas que me faltam para cumular a felicidade em completo - coisas que fogem de minha mão, domínio, tempo e razão; e Deus, o justo juíz, sabe de mim, das circunstânceas, e a Ele peço. A Ele entrego, e espero. E rogo em paz e ainda em paz.
E o vento, que leva e trás recados e canções, me fala as coisas que preciso saber, e de tudo, o que mais importa é que a esperança está ainda viva dentro de mim, e não se mostra piedosa e claudicante; mas sim forte, imponente, e mestra douta entre a vida e razão, sim e não - e me diz ela, enquão me tange a bôca com sua tesa, que ainda há, ainda tem, ainda dá, e sempre vai.
E meu coração, exulta em alegria.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Primeira Canção da Estrada.

 Estou há uma semana na casa nova, e estou há uma semana longe do amor. Mas, o Amôr ainda me ama, e tudo o que perdi, lentamente retorna a mim: Tenho teto, tenho paz, tenho amigos - me faltou tudo, menos Deus.

Tive fome, tive frio, dormi na rua, chorei sozinho e fui humilhado por clérigos; ouvi injustiças e disseram de coisa pouca do muito em minha vida que ocorreu. Fiquei só. E orei, e quando a oração não dava, me apegava a Mãe das Candeias, e quando ela me valia, a lágrima era lágrima de alegria. E o Bom Santo Antônio também me amparou, salvou, deu-me do que comer, beber, rir, e rejubilar no Senhor.

E os amigos vieram e se reuniram, houve a festa do lugar na terra. 

Deus, o Pai Eterno, me deu mais do que eu poderia e queria. Deus me lavou e me livrou do mal, me deu a paz que procurava, e agora me sustenta a ir adiante.
E a paz, o amor e a concórdia estão chegando. E cheiram a esperança.

quarta-feira, 20 de abril de 2022

São Paulo, São Paulo.

 Bença, Véa.

Sou eu, o Marcus. 


Manda dizer que o neto da retirante tá morando no centro, perto das igrêjas que a Véa gosta, e que aqui nem faz tão frio. Venta, mas nem esfria de verdade. Só venta. De madrugada é lindo, e o Sol nasce tímido e de repente toma conta de tudo deixando dourado e contrastando no insulfilm das janelas dos prédios; um barato.

Sei, Véa, que Deus sabe de tudo, mas tenho que dizer que algumas vezes não entendo os planos e porquês, e mesmo quando eles se explicam com o tempo, ainda sim fico com nós na cabeça - creio eu que deva apenas deixar pra lá, né?

E foi um difícil começo, Dona Antônia, viste daí, e a senhora puxando o cordiço de Santo Antônio me deu fôrça, ânimo e me ajudou a seguir. Agora, estando melhor e batalhando pra melhorar ainda mais; ainda faltam mais algumas coisas, mas com fé em Deus e na Imaculada logo tudo se ajeita, e espero que daí a señora aplauda com orgulho o tanto que estou saindo com glória desse desterro. 

Já tem um pseudo-armário, já tem um tamburete, um tapete e uma cama-de-paiol. Tem quadro de Santo Antônio e uma cruz que cuida e protege reinante tudo pra aqui somente estar e viver com Deus. Acho que a señora ia gôstar daqui, eu acordo tôdo dia com os sinos do Largo, e tenho umas árvores bem defronte a minha janela - mas sem passarinhos pra cantar, infelizmente...

A cercania é bôa, já fiz conhecidos e já até mesmo benzeram a minha casinha. Coloco sempre um som (aquelas cantiga bêsta como a señora dizia), e faço o que tenho que fazer. Aqui é perto de tudo, principalmente do meu coração. E numa madrugada, já vi pessoas andando na rua; e sim, é mui seguro, nem precisa se preocupar! De vera!

Obrigado, Véa, por tua dôce reza e me ensinar com os dois ditos populares que é sempre têmpo de vêncer e ir adiante. 

Sua benção, Rainha Assunta. 

Do teu, em amôr e saudade;

Marco Venicio.


quinta-feira, 7 de abril de 2022

Bilhete (VI)

 So sad, so sad.
I'm so sad to say goodbye.