Seo Fabio é a transição do têmpo e espaço, e nessa tentativa inútil de viver entre o saber e o descobrir, abri a fenda do tempo de imortalizar meu avô em palavras.
Nascido na fenda da pedra dura (chamada Itaquera), nasceu o homem de poucas palavras, ironia extrema, franqueza, e batedor-de-dedo-indicador na mesa quando bebe cerveja e come azeitona de tira-gosto.
Seo Fabio foi o homem (cujas profecias, pois homens desse calibre não estão na história, fazem), de bairro, futebol, de namoro-de-portão, de trabalho duro, e salário muito baixo, pouca comida e um omelete para quatro filhos. Uma esposa que lhe ajudava onde podia, e muitas vezes só aliviava o peso do mundo no bar, tomando a cana mansa-couro, ou o futebol onde se quebra ou é quebrado. O peito de meu avô é o lugar mais inacessível do mundo, e louvado seja quem o adentrou. Creio que se eu tivesse tantos dinheiros quanto bolsos em minha calça, deixaria todo isso guardado no peito de meu avô, nunca soube eu que alguém passou ali - e se passou, não voltou para contar a história.
De todo, meu avô sempre foi racional em tudo o que fez, agiu e constituiu ao longo de sua existência, claramente, nunca deixou muito o sentimento ir em sua frente, mas ao mesmo tempo, com sua forma, deixou o sentimento aguar parcas vezes - mas dessas parcas vezes, cada vez que me recordo, sei que vale mais do que uma vida sendo amado e amando. O altar que ponho Seo Fábio, o Velho, é digno por saber que foi um homem comum, que acordou cedo, labutou, jogou bola, bebeu, falou palavrão, brigou, riu, falou da política, ajudou quem pôde e como pôde, e se dedicou a família como pôde, em todas suas instâncias. Se meu pai foi omisso, nas raras vezes que pude estar pareado com meu avô, ele foi mais que avô, foi pai, mestre, profeta e amigo. Meu avô, por mais que não saiba, é um de meus melhores amigos.
É a prova cabal de que a vida não precisa de muito, mas o pouco tem que ser bem-feito, e feito com carinho e lucidez. E que na dificuldade proliferam coisas boas sim. Me ensinou tantas coisas, e mesmo sem saber, me incentivou em tantas outras, e indiretamente, me ensinou por tantas outras. Seo Fábio ainda hoje acorda, pega a bicicleta, vai até a banca, pega um jornal, passa um café, e lê o jornal ouvindo as notícias no rádio, e sempre que pode acompanha seu time jogando. Sempre que estou por lá, ouvimos uns discos, ou quando não estou lá, ele mesmo ouve os discos dele.
Seo Fábio não sabe, mas ele é uma das pessoas que mais sinto saudades.
Seo Fábio não pode morrer, e quando (infelizmente) a Irmã Morte o abraçar, rogo ao Santo dos Santos que mandem anjos em seu encontro, e que na presença da Virgem, sua alma seja amparada e consolada pelos serafins. Peço que ele, muro de arrimo e casa-forte de tanta gente dessa família, esteja em paz, pois não houve e nem haverá um espelho tão belo e límpido como esse homem. Espero ainda que segure meu rebento no seu colo. Espero poder curti-lo mais um tanto, e mais além: Espero poder abraçar aquele velho mais um tanto, mesmo nunca tendo a coragem de o fazer, e que no derradeiro momento, ele saiba que apesar de minha ausência, sempre se faz lembrado por palavras, atitudes, carinhos e prece.
E por último, mas como cimento, digo que meu avô, mesmo com sua agnosticidade, ou ateísmo, foi quem mais me ensinou de Deus, pois ao afirmar sua dúvida, me ensinou a entender o credo e correr atrás das Potências Celestes em meu caminho.
A benção, Seo Fábio!
"E eu que não creio, peço a Deus por minha gente; É gente humilde - que vontade de chorar"
Epitáfio do Marcus Queiroz. Apoia esse blog, faz um pix pra nózes: marcusvini15@hotmail.com
domingo, 17 de novembro de 2019
sábado, 16 de novembro de 2019
Lucky Seven.
memento mori
Ah, vai dizer que você não sabia que a morte é o princípio da vida, e que nada se começa sem se terminar? Vai me dizer que você acha que simplesmente tudo está aqui, suspenso no universo e nada aconteceu antes e nem depois? No escuro da noite, o norte do que vacila é uma oração - e o quanto mais se questiona mais sabe. No fim das contas, zerando a reza, o que sobra do homem é apenas a carne exposta e um coração que sangra: Ecce Homo! gritaram da platéia, e o palhaço, de íris-esmeraldina mete os pés pelas mãos e o mar verde é submarino, o cordão que aperta o pescoço é seda, e o que é velado, também sabe velar; Não dizem nada das arquibancadas, mas quando se desce para ouvir o universo, todos tem um palpite, uma coordenada, um conselho, e no fim do juízo, quem aconselha o conselhereiro? Afinal, de certo deve saber que a sapiência é dom dado e multiplicado quando dividido, mas, quando empirizado e descartado como vantagem, a burrice é o pé da soleira.
Até agora, os anjos continuam a voar pelo Céu e se distânciando de aviões e ônibus espaciais, então nossas bençãos estão garantidas; Os olhos ainda lacrimeijam de raiva e de lágrima, e não se ouve, não se sente, não se vê, no côvado de um banheiro, toda uma raiva se externa com as santas águas bentas do chuveiro - onde os touros de basã sentem mêdo, ali não me acharão, e vou mais além; Profeta de mim, sabia muito bem e antes de minha sina, e marcado por meu vaticínio sabia do que aconteceria, e parafraseando a velha senhora: Deus dá e Deus tira. As coisas, o tempo de convivência, tudo, é apenas um tempo de aprendizagem, mas Deus dá e Deus tira. As pessoas dão, e as pessoas tiram. E se o significado não difere, então é Pessoa.
Abaixo do Céu, a nivelação vem para todos, e a morte não nos faz irmãos. Pois sim, a vida. E enquanto a vida não vem, habitam verbos na boca, e se os verbos se conjugarem errados, corações se quebrou, se caminha pela estrada certa, sede seus passos firmes e bólicos, e deixa que o tempo mostra. Quem não tem tempo pro tempo, tem medo e raiva. Quem não tem tempo pro tempo, tem medo do êrro. Ainda existem coisas boas na terra, e por mais que andemos, ainda tem-se um cajado para seguir.
MAS em flôr, já cantava o Profeta, elogiando em sua trova uma Fôrça soberana tudo o que acontece, e vendo do passado, louvou os que seguem por agora, sabendo que a porta estreita ainda dará louros de glórias e lavras para quem quer a messe em ordem. No final das contas, as contas foram pagas com preço alto, e ao firmar os passos na estrada, esquecemos que o passado é passado, mas ao olhar a marca de nossos pés, vemos o quanto mudamos, e o quanto temos que melhorar: Louvamos um Amor, e machucamos quem amamos com aspereza e superficialidade, damos o Céu mas sem esquecer de firmar a terra sobre nossos pés - da adversidade nasce a razão, e da falta de pensar e da crítica nasce a ignorância e a adaga, que carregas atada em suas mãos, para cada vez que me vês, com teus abraços e mão-a-mão, penetra em mim. E no dobrar dos sinos, na raiva do metal que tina sem mêdo, minha alma grita em desespero, e na surdez do tinar eu sou ouvido enquanto as mãos limpas, tem sujeira demais, e as mãos sujas são as que merecem o bornal com a farta cornucópia.
memento mori
Ah, vai dizer que você não sabia que a morte é o princípio da vida, e que nada se começa sem se terminar? Vai me dizer que você acha que simplesmente tudo está aqui, suspenso no universo e nada aconteceu antes e nem depois? No escuro da noite, o norte do que vacila é uma oração - e o quanto mais se questiona mais sabe. No fim das contas, zerando a reza, o que sobra do homem é apenas a carne exposta e um coração que sangra: Ecce Homo! gritaram da platéia, e o palhaço, de íris-esmeraldina mete os pés pelas mãos e o mar verde é submarino, o cordão que aperta o pescoço é seda, e o que é velado, também sabe velar; Não dizem nada das arquibancadas, mas quando se desce para ouvir o universo, todos tem um palpite, uma coordenada, um conselho, e no fim do juízo, quem aconselha o conselhereiro? Afinal, de certo deve saber que a sapiência é dom dado e multiplicado quando dividido, mas, quando empirizado e descartado como vantagem, a burrice é o pé da soleira.
Até agora, os anjos continuam a voar pelo Céu e se distânciando de aviões e ônibus espaciais, então nossas bençãos estão garantidas; Os olhos ainda lacrimeijam de raiva e de lágrima, e não se ouve, não se sente, não se vê, no côvado de um banheiro, toda uma raiva se externa com as santas águas bentas do chuveiro - onde os touros de basã sentem mêdo, ali não me acharão, e vou mais além; Profeta de mim, sabia muito bem e antes de minha sina, e marcado por meu vaticínio sabia do que aconteceria, e parafraseando a velha senhora: Deus dá e Deus tira. As coisas, o tempo de convivência, tudo, é apenas um tempo de aprendizagem, mas Deus dá e Deus tira. As pessoas dão, e as pessoas tiram. E se o significado não difere, então é Pessoa.
Abaixo do Céu, a nivelação vem para todos, e a morte não nos faz irmãos. Pois sim, a vida. E enquanto a vida não vem, habitam verbos na boca, e se os verbos se conjugarem errados, corações se quebrou, se caminha pela estrada certa, sede seus passos firmes e bólicos, e deixa que o tempo mostra. Quem não tem tempo pro tempo, tem medo e raiva. Quem não tem tempo pro tempo, tem medo do êrro. Ainda existem coisas boas na terra, e por mais que andemos, ainda tem-se um cajado para seguir.
MAS em flôr, já cantava o Profeta, elogiando em sua trova uma Fôrça soberana tudo o que acontece, e vendo do passado, louvou os que seguem por agora, sabendo que a porta estreita ainda dará louros de glórias e lavras para quem quer a messe em ordem. No final das contas, as contas foram pagas com preço alto, e ao firmar os passos na estrada, esquecemos que o passado é passado, mas ao olhar a marca de nossos pés, vemos o quanto mudamos, e o quanto temos que melhorar: Louvamos um Amor, e machucamos quem amamos com aspereza e superficialidade, damos o Céu mas sem esquecer de firmar a terra sobre nossos pés - da adversidade nasce a razão, e da falta de pensar e da crítica nasce a ignorância e a adaga, que carregas atada em suas mãos, para cada vez que me vês, com teus abraços e mão-a-mão, penetra em mim. E no dobrar dos sinos, na raiva do metal que tina sem mêdo, minha alma grita em desespero, e na surdez do tinar eu sou ouvido enquanto as mãos limpas, tem sujeira demais, e as mãos sujas são as que merecem o bornal com a farta cornucópia.
memento mori
sexta-feira, 15 de novembro de 2019
Swinging Along.
Se você me conhecesse, saberia do motivo do brilho dos meus olhos, e não me afastaria do que me faz bem. Me colocaria em um dos nichos, e nos muros de pó-de-ostra estaria eu cohabitando entre o tempo e a história, sendo mais um dos que se passaram, a viver o que convém.
No final, a história seria apenas um pedaço no tempo, e diversos períodos de tempo contemplam uma cena na biblioteca da vida, e se não houvesse memórias a se consultar, de nada valeriam, mas sabe-se que as referência mudam completamente. O livro escrito, por mais que semelhante ao que se escreve, tem lá suas diferenças. Muda-se as pessoas, e finalmente muda-se a cena, há uma nova fase em progresso, e a música continua a mesma - apenas entrou numa suíte diferentes.
Deitaria minha cabeça no seu colo e não diria nada, e no peso de seu colo sentiria como pesa uma cabeça que tenta achar a resposta de tudo, não para si, mas para ter o causo crítico da razão para tudo e para todos, e assim, vendo-me entre o acordar e dormir, iria respirar, e somente sorriria, e nada diria. Os carinhos cessariam, e minha cabeça, finalmente podendo descansar, faria a sua pensar. Os dias correm, e frios ou quentes os pássaros ainda estão lá, e pouco importa o que possa acontecer, somente valem que os pássaros estajam brigando contra o Céu para morar no ar, e ainda bem que em alguma fase de minha vida eu vou morar no Céu - cabe mais a terra funda que me encerca do que o concreto que me causaria uma ruína.
E não muito longe de onde ela olha da janela e vê a ávida multidão, ele anda na rua vendo as gotas de chuva caírem por completo na rua, o asfalto ficando úmido e as marquises se apoderando do mar de gentes que lhes cabem por baixo. Enquanto a chuva não derrete quem não é feito-de-açúcar, ela olha as gotas molharem a janela, meias no pé, e enquanto o pão está no forno, uma coberta quente e uma cama lhe esperam para descansar, afinal, o que mais lhe valeria? O corpo pequeno e macio que repousa é também aquele que abriga o esconderijo da alegria que se sente mais ainda não vê, os olhos cuidam de cruzar o que a alma não vê, e os corações ainda se fazem encontrar numa sintonia mesmo que dissonante, e aquilo que é alegria, não se estabiliza, apenas se mantém de forma alteradas, afinal: Não é a vida que acontece?
No final, a história seria apenas um pedaço no tempo, e diversos períodos de tempo contemplam uma cena na biblioteca da vida, e se não houvesse memórias a se consultar, de nada valeriam, mas sabe-se que as referência mudam completamente. O livro escrito, por mais que semelhante ao que se escreve, tem lá suas diferenças. Muda-se as pessoas, e finalmente muda-se a cena, há uma nova fase em progresso, e a música continua a mesma - apenas entrou numa suíte diferentes.
Deitaria minha cabeça no seu colo e não diria nada, e no peso de seu colo sentiria como pesa uma cabeça que tenta achar a resposta de tudo, não para si, mas para ter o causo crítico da razão para tudo e para todos, e assim, vendo-me entre o acordar e dormir, iria respirar, e somente sorriria, e nada diria. Os carinhos cessariam, e minha cabeça, finalmente podendo descansar, faria a sua pensar. Os dias correm, e frios ou quentes os pássaros ainda estão lá, e pouco importa o que possa acontecer, somente valem que os pássaros estajam brigando contra o Céu para morar no ar, e ainda bem que em alguma fase de minha vida eu vou morar no Céu - cabe mais a terra funda que me encerca do que o concreto que me causaria uma ruína.
E não muito longe de onde ela olha da janela e vê a ávida multidão, ele anda na rua vendo as gotas de chuva caírem por completo na rua, o asfalto ficando úmido e as marquises se apoderando do mar de gentes que lhes cabem por baixo. Enquanto a chuva não derrete quem não é feito-de-açúcar, ela olha as gotas molharem a janela, meias no pé, e enquanto o pão está no forno, uma coberta quente e uma cama lhe esperam para descansar, afinal, o que mais lhe valeria? O corpo pequeno e macio que repousa é também aquele que abriga o esconderijo da alegria que se sente mais ainda não vê, os olhos cuidam de cruzar o que a alma não vê, e os corações ainda se fazem encontrar numa sintonia mesmo que dissonante, e aquilo que é alegria, não se estabiliza, apenas se mantém de forma alteradas, afinal: Não é a vida que acontece?
domingo, 10 de novembro de 2019
José.
Na madrugada, não muito longe desse mar, dois amantes se deitaram após de ver a rua, e no parco moviemento, como duas sentinelas, do alto da janela, se abstém. A cama quente sabe se entreter melhor que a madrugada que desponta pelos olhos acastanhados, olhos que só sobrevivem no crepúsculo, olhos que nascem quando o dia morrer. Ali, no eleio, elegem-se arrimo um do outro, e enquanto dorme, com o cabelo acacheado perfumado, no grosso do sono eu a ouvi dizer meu nome. Pele branca, cintura fina, pés pequenos, sorriso esmaecido e a tranquilidade que finalmente encontrou-se no sono. Dos justos, dos incertos, do que valer, mas ali se encontra o fim.
Eu ouvi, você chamar, o meu nome.
De fato, não me assusta por um segundo que a vida se aconteça e se renove. Me assusta as pessoas querem dominar o alheio, transfigurar aquilo que lhes cabem na vista de um palmo, para deturpar para seu próprio prazer - ou dor.
Cabe me a cova de desejos, e um mar ferreo aonde não consigo mais navegar - e foi ali, aonde deitei meu coração, por baixo do mar ferreo, aonde os heróis nunca saberão de seu panteão, e aonde as donzelas choram suas miçangas, lágrimas de môça e rugido de transformação, é ali onde ele está, pouco abaixo da linha da razão e um pouco acima da serviliência. Aonde os deuses podem pisar.
E dentre toda essa multidão, ouvi sua voz me dizer coisas, uma mão que segurou a minha, um abraço que me afagou e um beijo que tomou meu segredo. Eu estou esperando um milagre. Eu estou esperando os sinos tocarem. Eu estou esperando os pássaros marrons. Eu estou esperando o dia acontecer. Eu estou esperando o meu Sol rasgar o peito. Entretanto, esperar todas essas coisas nunca significou nada para os outros além de mim, e mesmo que as pessoas estejam a dizer: Estou aqui, conte comigo, só eu sei o que carrego - que vale dizer que está, e que compartilha, se no final não está e não compartilha? Me vale mais um silêncio do que a falsa esperança, e a falsa caridade. Me vale mais a solidão do que falsas companhias, e deixo o ouro na mão dos que o almejam, pois me basta apenas meus pés cansados, e o que tenho dentro de mim. Cabe a mim apenas ter a esperança de que já está tudo consumado entre os pés e contrapés da casa. Fiz o que pude e não pude, guardei a fé dentro de meu peito e distribui como a eucaristia a quem quis. O resto não me interessa.
Senhor, Tu tens tido feito o Vosso Refúgio em meu peito.
Nos velhos muros tricentenários, ainda consigo reunir as últimas forças para ver o Amado. E ao me entregar como cordeiro ao Pastor, sinto ao menos mais uma vez o Único amôr que realmente me ama sem ter adagas e pedras na mão, e sinto pela primeira vez que mesmo com todos os defeitos e falhas de minha vida, ainda tenho a minha redenção e glória. Sei que no final das contas tenho em minha alma uma grande coisa fervilhando, mas não sei o quê ou como, de qual forma ou proceder; Ponho-me defronte de um turbilhão de coisas que não sei decifrar, e apenas espero o tempo passar para entender tudo.
E toda vez que (se) sentir a dôr, respira, refrão. Acaso não sabe que a Mãe daquele que remiu o mundo olha pelo povo que come as migalhas? De certo, não é a destra do Senhor que se opera em maravilhas e salva o justo da morte? Que vida é essa, que faz os amados se degladiarem e dar a dôr em vez da esperança? Será mesmo que é isso, apenas brigar, até mesmo com quem se ama e crescer cada vez mais solitário, para depois de tudo ajeitado, vir alguém como um ladrão e dizer que sempre quis nosso bem? De fato, se a solidão nos faz bem, não nos cabe mais em sociedade ou como falsos amigos, falsos parentes, ou pequenos transeuntes de vida, que nos dão falsa força, ou falso carinho - a velha cultura do bate-e-assopra.
Eu ouvi, você chamar, o meu nome.
De fato, não me assusta por um segundo que a vida se aconteça e se renove. Me assusta as pessoas querem dominar o alheio, transfigurar aquilo que lhes cabem na vista de um palmo, para deturpar para seu próprio prazer - ou dor.
Cabe me a cova de desejos, e um mar ferreo aonde não consigo mais navegar - e foi ali, aonde deitei meu coração, por baixo do mar ferreo, aonde os heróis nunca saberão de seu panteão, e aonde as donzelas choram suas miçangas, lágrimas de môça e rugido de transformação, é ali onde ele está, pouco abaixo da linha da razão e um pouco acima da serviliência. Aonde os deuses podem pisar.
E dentre toda essa multidão, ouvi sua voz me dizer coisas, uma mão que segurou a minha, um abraço que me afagou e um beijo que tomou meu segredo. Eu estou esperando um milagre. Eu estou esperando os sinos tocarem. Eu estou esperando os pássaros marrons. Eu estou esperando o dia acontecer. Eu estou esperando o meu Sol rasgar o peito. Entretanto, esperar todas essas coisas nunca significou nada para os outros além de mim, e mesmo que as pessoas estejam a dizer: Estou aqui, conte comigo, só eu sei o que carrego - que vale dizer que está, e que compartilha, se no final não está e não compartilha? Me vale mais um silêncio do que a falsa esperança, e a falsa caridade. Me vale mais a solidão do que falsas companhias, e deixo o ouro na mão dos que o almejam, pois me basta apenas meus pés cansados, e o que tenho dentro de mim. Cabe a mim apenas ter a esperança de que já está tudo consumado entre os pés e contrapés da casa. Fiz o que pude e não pude, guardei a fé dentro de meu peito e distribui como a eucaristia a quem quis. O resto não me interessa.
Senhor, Tu tens tido feito o Vosso Refúgio em meu peito.
Nos velhos muros tricentenários, ainda consigo reunir as últimas forças para ver o Amado. E ao me entregar como cordeiro ao Pastor, sinto ao menos mais uma vez o Único amôr que realmente me ama sem ter adagas e pedras na mão, e sinto pela primeira vez que mesmo com todos os defeitos e falhas de minha vida, ainda tenho a minha redenção e glória. Sei que no final das contas tenho em minha alma uma grande coisa fervilhando, mas não sei o quê ou como, de qual forma ou proceder; Ponho-me defronte de um turbilhão de coisas que não sei decifrar, e apenas espero o tempo passar para entender tudo.
E toda vez que (se) sentir a dôr, respira, refrão. Acaso não sabe que a Mãe daquele que remiu o mundo olha pelo povo que come as migalhas? De certo, não é a destra do Senhor que se opera em maravilhas e salva o justo da morte? Que vida é essa, que faz os amados se degladiarem e dar a dôr em vez da esperança? Será mesmo que é isso, apenas brigar, até mesmo com quem se ama e crescer cada vez mais solitário, para depois de tudo ajeitado, vir alguém como um ladrão e dizer que sempre quis nosso bem? De fato, se a solidão nos faz bem, não nos cabe mais em sociedade ou como falsos amigos, falsos parentes, ou pequenos transeuntes de vida, que nos dão falsa força, ou falso carinho - a velha cultura do bate-e-assopra.