A garôta não existe mais.
"É invenção do vento", disseram-me êles, assentados sobre os tamboretes, apesar de poucas vozes ouvirem e muitos ouvidos falarem. E ninguém quer saber se muito ou se pouco, apenas quer saber e ir atrás do que convém. E eu, fiquei para escanteio, fiquei para depois, deixei para outro dia, empacotei e quis saber se dá pra entregar ao remetente.
Ah, coração traiçoeiro, que bate e bate e não chega em compasso sincopado. Te orienta!
Talvez até estivessem certo, eles. Afinal, nem eu botei fé, e com os ombros cansados contra a maré, hoje me deixei ser um da correnteza, e ao parar de reter, não sinto mais a vontade de entender, de fazer saber, tampouco de fazer a vontade prevalecer. Quero agora é ganhar no grito, quero é bater na cara, e gritar mais, quero e tudo de cerveja, de skol. Quero é ver a geral piar e apoiar na arquibancada meu alvinegro, e voltar para os pontos riscados no chão de Seo Fábio, e lembrar o nome de tôdos os boiadeiros, para me valer daquela antiga reza para quem me acompanha. Quero é ver meu nome no Céu, e não aceito menos que isso. Quero tudo o que reneguei, porque isso não mais me valeu, o Céu sobre minha cabeça não tem mais heróis. Apenas pessoas iguais a mim, que quanto mais as chamo, mais parecem longe, distantes, inóquas ao que digo - e mesmo eu falando latim, elas inda sim não me entendem.
Sorria, enxuga as lágrimas, recusa a porta e estreita e vai viver, guarda a pérola e vae viver, que a vida é boa, e os deuses sorriem ao teu favôr.
Quero emagrecer para entrar na calça de baile, quero a bota engraxada e a camisa engomada, tirar a barba e cortar o cabelo em três pôntas. Quero os anos de Start de volta, e as coca-com-montilla, as meninas de saiota e fred perry, botinha e riso maldoso, quero as andadas atrás do boteco mais barato, e o riso aberto, imortal, isecular, que nunca vai morrer, e vai se gravar na coxa das moças e no fígado dos amigos, quero tudo que me cabe por direito, e mais além: Quero que calem-se as bocas, e que se entendam os sonhos. Quero a vida por vida, a minha vida por direito - que ninguém nunca toma, rouba, fere ou mata. Quero o gemido louco e desenfreado de gozo, quero tudo aquilo que me foi prometido e mais do que foi, e dessa vez não me dou o direito de dividir, quero para mim, e para minha tumba, pois se muitos juraram sobre ela, nela habitarei e nela tudo o que for meu por excelsa garantia, lá estará - pegará quem quer, sobreviverá quem eu deixar. Eu sou o vento.
Deixo minha humildade a quem se inteirar da verdade, e meu matulo a quem quiser carregar pedras, meu paladar para quem quiser comer sal, e minha alma para quem quiser contemplar Deus. Deixo minha vida para quem quiser bater de frente com o inefã, e deixo meu segredo ao Prometido, pois só Ele tem direito disso, como acordado na Ceia Mística, e as garôtas deixo minha motriz sexual, para que quando alguém as tocar, seja eu o primeiro, intermediário e último pensamento. E de menos, deixo meu afago a tôdos os caninos da rua, e quem quiser me sentir, vai me achar no Centro Velho, ali na São João e Barão, nos botecos, nas lojas de discos, nos sorrisos, e tudo mais que de bom e infinito que houver.
Eu quero o aboio de meus avôs nordestinos, tão amados, estimados, queridos e amados como todo o povo da Correntina! A benção, Vô Francisco, A benção, Rainha Dona Antônia!
Eu quero o que é meu por direito, só que dessa vez eu vou mandar buscar.